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Metade dos jornalistas no Brasil sofre de depressão, aponta estudo inédito; especialista fala sobre estabelecer limites na profissão

Relatório da Fundacentro e da Fenaj aponta que 50,2% dos jornalistas brasileiros têm depressão; o Aratu On se reúne com especialista para explicar como reconhecer sinais e prevenir a doença

Por Laraelen Oliveira.

A Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), analisou as condições de trabalho e a saúde mental e constatou que 50,2% dos jornalistas do Brasil têm depressão. O levantamento também identificou sintomas de insônia em 47,9% dos participantes, além de estresse em 47,8% e ansiedade em 35,8%.

No estudo “Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil” aproximadamente 257 jornalistas representam um cenário de alerta sobre as características da rotina de um profissional da imprensa e com eles seus alertas à saúde dos trabalhadores.

Depressão pode afetar diferentes áreas da vida, incluindo relações pessoais, rotina profissional, sono e capacidade de concentração/Foto: Freepik

Os dados também apontam as recorrentes ocorrências de assédio moral. Seguindo pelo critério de Leymann, 37% dos participantes relataram situações que se enquadram nessa condição, já pelo método de Mikkelsen e Einarsen o porcentual passou a ser de 26,1%. O cyberbullying também aparece entre os problemas enfrentados pelos profissionais, atingindo 30,4% dos entrevistados.

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O levantamento aponta ainda que cerca de 33% dos participantes consideram ter baixa capacidade para o trabalho e 28% estão em situação de alto desgaste. O baixo apoio social foi percebido por 61,1% da amostra. Já o uso de álcool em níveis considerados de risco, nocivos ou de dependência foi identificado em 21,5% dos entrevistados.

Condições de trabalho impactam a saúde mental dos jornalistas do Brasil 

Para a presidente da Fenaj, Samira de Castro, a deterioração das condições de trabalho dos jornalistas vai além da questão salarial.

“Isso não se resume à questão salarial. Estamos falando de jornadas extensas, pressão por produtividade, redução das equipes, acúmulo de funções, precarização dos vínculos e uma cobrança permanente para produzir cada vez mais, em menos tempo e para diferentes plataformas”, avalia.

A rotina jornalística também envolve exposição frequente a situações de estresse, coberturas de temas sensíveis, descredibilização e ataques físicos ou digitais.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 36,3% dos alertas registrados em 2025 envolveram agressões verbais, escritas ou virtuais, totalizando 204 registros de ataques em um ano sem eleições, mas marcado por intensa polarização política.

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Em anos eleitorais, a violência contra profissionais da imprensa também ganha destaque. De acordo com relatório da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), da qual a Abraji faz parte, durante o período eleitoral de 2024 foram identificados mais de 57 mil ataques digitais contra a imprensa nas redes sociais.

O cuidado com a Depressão envolve atenção aos aspectos emocionais, físicos e sociais, além do acompanhamento de profissionais capacitados/Foto: Reprodução 

Em outro levantamento, divulgado durante as eleições, foram registrados 2.630 ataques diretos contra 91 veículos de comunicação e 46 jornalistas entre 16 e 29 de agosto. Na quinzena seguinte, entre 30 de agosto e 12 de setembro, o número cresceu 67,3%, chegando a cerca de 4,4 mil ataques.

O cenário se relaciona aos 30,4% de jornalistas que relataram ter sofrido cyberbullying no levantamento da Fenaj e reforça a preocupação com os efeitos da hostilidade digital sobre a saúde psicológica dos profissionais.

“Ainda existe tabu”: presidente da Fenaj fala sobre dificuldade de pedir ajuda em casos de depressão 

Diante desse cenário, Samira de Castro afirma que o receio de buscar ajuda ainda é um obstáculo dentro das redações. “Ainda existe muito tabu. Em muitas redações, admitir que está sobrecarregado ou enfrentando um problema de saúde mental pode ser interpretado como falta de capacidade ou comprometimento. Isso é extremamente preocupante”, afirma.

Para a presidente da Fenaj, a saúde mental dos jornalistas não deve ser tratada apenas como uma responsabilidade individual. “Precisamos mudar essa cultura. O jornalista não pode ter medo de dizer que está adoecendo. Não podemos transformar o trabalhador no responsável por um problema que é produzido pelas condições em que ele trabalha. Esse debate precisa sair do campo individual e entrar na agenda das empresas, dos sindicatos e do poder público”, defende.

A Abraji também orienta que redações e empresas de comunicação assumam responsabilidade pela proteção das equipes, com protocolos de segurança e treinamento para profissionais que atuam em coberturas de risco.

Exaustão e vazio: psicóloga fala sobre estresse e depressão provocados pela rotina profissional de um jornalista 

Para entender como o jornalista pode reconhecer sinais de sofrimento psicológico e diferenciar o estresse provocado pela rotina profissional de um quadro que exige atenção, o Aratu On conversou com a psicóloga Paula Motta, graduada pela Faculdade Social da Bahia e pós-graduada em Psicologia Clínica Existencialista Sartriana.

Segundo a especialista, uma das principais diferenças está na persistência dos sintomas. “O estresse e o cansaço tendem a diminuir com descanso e recuperação. Na depressão, a exaustão persiste acompanhada por uma sensação de vazio e perda de sentido”, explica Paula.

Estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal pode contribuir para a prevenção de problemas relacionados à saúde mental, incluindo a Depressão/Foto: Freepik 

No jornalismo, esses sinais podem aparecer de diferentes formas, como irritabilidade, apatia diante das pautas, isolamento, dificuldade de concentração e uma espécie de anestesia emocional.

“Um sinal de alerta é o estreitamento do horizonte de futuro, onde o trabalho passa a ser vivido de forma puramente mecânica e a vida fora dele, sem significado e vitalidade”, acrescenta.

Prevenção começa pelo reconhecimento dos próprios limites

Para Paula, uma das estratégias de prevenção é compreender que a profissão não deve ocupar toda a identidade do indivíduo. “A prevenção começa pelo reconhecimento de que a profissão é um modo de atuar no mundo, e não a totalidade da identidade do sujeito”, afirma.

Na prática, a especialista recomenda estabelecer limites entre o tempo dedicado ao trabalho e o período destinado à vida pessoal, criar rituais de desconexão, manter relações e projetos que não estejam relacionados à profissão e evitar o uso de álcool ou outras substâncias como forma de anestesiar o sofrimento.

“Cuidar de si é escutar os próprios limites físicos e emocionais antes que o corpo e a mente precisem parar à força”, orienta.

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A psicóloga também destaca que a responsabilidade pela saúde mental não pode recair exclusivamente sobre o trabalhador. Segundo ela, as empresas precisam atuar diretamente sobre as condições de trabalho.

Entre as medidas estão o dimensionamento realista das jornadas, garantia de pausas, períodos de recuperação após coberturas traumáticas e capacitação de gestores para reconhecer sinais de sofrimento.

“É fundamental construir uma cultura em que reconhecer limites e buscar ajuda sejam entendidos como atitudes de responsabilidade, e não como falta de profissionalismo”, afirma.

Coberturas com temas fortes fazem parte da vida de jornalistas do Brasil, como lidar com elas? 

A exposição a acidentes, mortes, tragédias e outras situações de forte impacto emocional faz parte da rotina de muitos jornalistas. Para Paula, é importante estabelecer limites antes, durante e depois dessas coberturas.

Antes da cobertura, o profissional deve compreender seu papel como testemunha e jornalista, alinhar expectativas com a equipe e evitar assumir a responsabilidade de solucionar a situação vivenciada pelas pessoas envolvidas.

A discussão sobre Depressão entre jornalistas também envolve as condições oferecidas pelas empresas, como pausas, jornadas adequadas e suporte após coberturas de situações traumáticas/Foto: Freepik

Durante a apuração, é necessário observar os próprios sinais físicos e emocionais e realizar pausas quando possível. “O jornalista deve estar atento aos próprios sinais físicos e emocionais, fazer pausas quando possível e manter uma empatia que permita acolher o sofrimento do outro sem se confundir com ele”, explica.

Após a cobertura, a especialista considera importante haver um período de descompressão antes que o profissional seja direcionado para uma nova pauta de impacto.

“Sensibilidade e rigor profissional não são opostos. Não é preciso anestesiar a própria humanidade para fazer bom jornalismo”, destaca.

Buscar ajuda não significa falta de profissionalismo

Para Paula, o enfrentamento do estigma relacionado à saúde mental passa pela desconstrução da ideia de que um bom jornalista precisa ser emocionalmente inabalável. “Buscar ajuda não é sinal de fragilidade, mas uma forma de cuidado e responsabilidade consigo mesmo”, afirma.

A psicóloga explica que o acompanhamento profissional deve ser considerado quando o sofrimento deixa de ser pontual e começa a comprometer a saúde física, as relações pessoais e a capacidade de projetar o futuro de maneira satisfatória.

“Quando a rotina passa a ser vivida apenas como um esforço para suportar o dia seguinte, é importante buscar apoio profissional”, orienta.

Para Samira de Castro, cuidar da saúde dos jornalistas também significa preservar a qualidade do próprio jornalismo.

“Um profissional submetido permanentemente à exaustão, à pressão e à precarização terá mais dificuldade de exercer plenamente sua função social. Defender condições dignas de trabalho, portanto, é também defender um jornalismo mais forte, ético, independente e comprometido com a sociedade”, afirma.

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