Dono de clínica de reabilitação em Candeias ainda não foi localizado
Proprietário da clínica de reabilitação de Candeias não foi encontrado durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão; polícia investiga tortura e maus-tratos
Por Ananda Costa.
O proprietário da clínica de reabilitação localizada na zona rural de Candeias, alvo da Operação Terra Santa, deflagrada pela Polícia Civil da Bahia na quarta-feira (22), foi identificado como Moisés de Jesus Leal.

Em entrevista coletiva realizada na manhã desta quinta-feira (23), a Polícia Civil informou que Moisés não foi localizado durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão em sua residência, no bairro do Cabula, em Salvador. Ele segue sendo procurado.
Durante a operação, que investiga as mortes de Iago Marques Formiga, de 33 anos, e Geovane Santana Lopes, de 31, equipes da Polícia Civil cumpriram mandados de busca e apreensão nas residências do proprietário e do gerente da clínica. Nos imóveis, foram apreendidos notebooks, celulares, documentos e medicamentos controlados, materiais que serão submetidos à perícia para auxiliar no aprofundamento das investigações.
Até agora, apenas o gerente da clínica, Charles Vinícius, foi preso. Apontado como braço direito do proprietário, ele foi autuado em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos após os policiais encontrarem 39 pacientes em situação de cárcere privado na unidade.
Além das buscas, policiais realizaram diligências em áreas de mata próximas à clínica após receberem denúncias de que internos eram obrigados a cavar buracos sob a justificativa de descarte de lixo. A polícia apura a verdadeira finalidade desses locais e se eles podem ter sido utilizados na prática de outros crimes.
Como começaram as investigações

As investigações tiveram início após o desaparecimento de Iago Marques Formiga, de 33 anos.
Morador do bairro da Federação, em Salvador, ele foi visto pela última vez na tarde de 9 de maio, em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Ex-usuário de drogas, Iago trabalhava como motorista da clínica de reabilitação. Segundo o pai dele, de 65 anos, em entrevista à repórter Lara Linhares, da TV Aratu, o proprietário da clínica teria entregue R$ 2 mil ao filho para que ele realizasse um depósito bancário. Após sair para cumprir a tarefa, no entanto, Iago desapareceu.
O pai afirmou que não sabe informar se o filho havia voltado a fazer uso de drogas. Ele relatou ainda que Iago também realizava reuniões com internos e pacientes da Clínica Terra Santa Videira.
No dia 19 de maio, o corpo de Iago foi encontrado próximo à Via Atlântica, em Camaçari, também na Região Metropolitana de Salvador. Após exames realizados pelo Instituto Médico Legal (IML), a identidade da vítima foi confirmada.
Familiares e amigos se despediram de Iago durante o sepultamento realizado no Cemitério Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador.

Polícia suspeita de "queima de arquivo"
Durante a coletiva, o delegado Marcos Laranjeira, titular da 20ª Delegacia Territorial (DT) de Candeias, afirmou que a principal linha de investigação aponta que Iago pode ter sido vítima de uma "queima de arquivo".
"Nós colhemos depoimentos nesse sentido de que o Iago, inconformado com os maus-tratos e com a tortura praticada na clínica contra um amigo, foi vítima de queima de arquivo, porque havia a intenção dele relatar o fato às autoridades policiais", afirmou o delegado.
Além da morte de Iago, a Polícia Civil também investiga o caso de Geovane Santana Lopes, de 31 anos, que morreu em maio deste ano em decorrência de queimaduras sofridas dentro da clínica, em dezembro de 2025.

Segundo o delegado, já existem indícios da participação do proprietário da clínica nos crimes investigados.
"As investigações já apontam indícios de participação do proprietário nos crimes de maus-tratos e tortura praticados contra os internos. Também apuramos denúncias de que a clínica possa ter sido utilizada para a execução de vítimas e investigamos a possível participação dos envolvidos em uma organização criminosa", declarou.
Como funcionava a clínica de reabilitação

Durante a operação, os policiais encontraram quartos trancados pelo lado de fora com cadeados e trancas. Também foram identificadas cercas com fios eletrificados instaladas sobre os telhados que, segundo as investigações, eram utilizadas para impedir a fuga dos pacientes.
Depoimentos colhidos durante a operação revelam que os internos eram submetidos a agressões físicas, trabalhos forçados, privação de liberdade e administração irregular de medicamentos controlados para reduzir a capacidade de reação das vítimas.
Os relatos também apontam a existência de um espaço conhecido como "quartinho do amor", onde pacientes afirmam ter sido colocados de cabeça para baixo enquanto sofriam agressões.
Outra área investigada fica nos fundos da clínica, próxima a um lago. Segundo testemunhas, internos eram levados ao local para sessões de tortura que incluíam supostos afogamentos.
Os 39 pacientes resgatados passaram por exames periciais realizados pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT). Os laudos deverão subsidiar as investigações sobre os crimes de tortura, maus-tratos e outras infrações penais que eventualmente sejam identificadas ao longo da apuração.

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