Brigada K9 denuncia retirada de cães e cobra respostas sobre abrigo na Bahia; entenda
Brigada K9 afirma que animais estão confinados há mais de um mês após retirada de antigo espaço e cobra providências das autoridades
Por Dinaldo dos Santos.
A Brigada K9, instituição de utilidade pública que atua há 25 anos no resgate, tratamento e encaminhamento para adoção de cães vítimas de maus-tratos, denunciou uma série de problemas envolvendo a retirada dos animais de um terreno utilizado pela entidade na Bahia.
Segundo a instituição, os cães estão há mais de um mês confinados em uma nova estrutura e sem acesso do responsável pelos animais. O Ministério Público foi procurado para se manifestar sobre o caso, mas ainda não houve retorno.
As acusações foram divulgadas pela atriz Paula Burlamaqui, em vídeo publicado nas redes sociais, e pela própria entidade. O Ministério Público foi procurado para se manifestar sobre o caso, mas ainda não houve retorno.
Segundo Burlamaqui, a instituição, comandada por França, atua há 25 anos no resgate e na recuperação de cães vítimas de maus-tratos, mantendo os animais para posterior adoção. A atriz afirma que o antigo espaço utilizado pela entidade precisou ser desocupado em razão de intervenções relacionadas à construção da Ponte Salvador-Itaparica.
Estrutura oferecida pelo Estado é contestada
De acordo com o relato divulgado pela atriz, teria sido acordada a construção de uma nova estrutura para abrigar os animais, com a participação da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder).
Burlamaqui afirma, porém, que dos 30 canis que teriam sido prometidos, apenas 16 foram construídos e apresentariam dimensões reduzidas, pouca ventilação e características que, segundo a instituição, poderiam configurar confinamento inadequado.
A atriz também afirma que, diante da recusa do comandante em transferir os cães para o espaço considerado inadequado pela entidade, os animais teriam sido retirados durante uma operação realizada durante a noite, com a participação de policiais.
Em nota enviada ao Aratu On, a gestão informou que tentou negociar, desde setembro de 2025, a desocupação do Espaço Jequitaia, área destinada às obras da Ponte Salvador–Itaparica. Sem acordo, a retomada ocorreu pacificamente em 24 de julho de 2026, com apoio da PM e de equipes veterinárias.
Durante a ação, 17 cães foram resgatados em condições insalubres. Dois estavam em estado grave: o cão Black Black, que precisou ser submetido à eutanásia devido a um quadro irreversível, e a cadela Princesa, que recebeu transfusão e teve alta.
Os animais foram levados para o antigo Estaleiro Corema, na Ribeira, adaptado para acolhê-los com alimentação, medicamentos, atendimento veterinário e segurança 24 horas. Segundo o Estado, a melhora dos cães após o resgate contraria alegações de abandono ou maus-tratos.




Veja a nota na íntegra:
Desde setembro de 2025, o Estado e a Concessionária Ponte Salvador Itaparica buscaram viabilizar a desocupação consensual da área Espaço Jequitaia, para implantação do canteiro de obras do Sistema Rodoviário Ponte Salvador–Ilha de Itaparica. A área, de propriedade do Governo do Estado da Bahia, vinha sendo ocupada irregularmente por empresas e particulares majoritariamente do setor náutico, e a entidade privada denominada Instituto de Ensino, Pesquisa, Segurança e Defesa Social – Brigada K9.
Esgotada a via consensual, a retomada administrativa do Espaço Jequitaia foi executada pacificamente em 24 de julho de 2026, conduzida por policiais militares especialistas em resoluções de conflitos e trato com cães, além da Companhia de Polícia de Proteção Ambiental (Coppa), com a participação de representantes de órgãos da gestão estadual e acompanhamento de profissional da área veterinária, seguindo todos os procedimentos e as diretrizes jurídicas e administrativas.
Em paralelo às negociações, o Governo do Estado foi reformando e adequando o antigo Estaleiro COREMA, no bairro da Ribeira, para um possível acolhimento provisório dos ocupantes, seus bens, assim como os animais.
No Espaço Jequitaia foram resgatados 17 cães, encontrados em ambiente insalubre, abrigos precários e condições sanitárias inadequadas. Alguns apresentavam situações clínicas visivelmente preocupantes e enfermidades que demandavam atendimento médico-veterinário de emergência. Os relatórios técnicos e veterinários, realizados na ocasião, identificaram, dentre outras alterações, infestação por pulgas, parasitismo gastrointestinal, lesões e desidratação. As fotos e vídeos indicam presença de dejetos biológicos, acúmulo de lixo e condições favoráveis à proliferação de vetores e pragas.
Na triagem veterinária inicial, seis animais foram classificados em risco verde, nove em risco amarelo e dois em risco vermelho. Estes últimos foram encaminhados imediatamente para internamento hospitalar conforme Relatório Técnico de Avaliação Clínica e Triagem Médico-Veterinária.
Os registros oficiais demonstram, portanto, que as condições inadequadas de abrigo e as alterações clínicas identificadas nos animais estavam presentes no momento da retomada administrativa, antes do acolhimento provisório providenciado pelo Estado. A evolução clínica comprova a efetividade dos cuidados: em 31 de agosto, 12 cães estavam em risco verde, 4 em amarelo e nenhum em vermelho.
A melhora clínica e emocional dos animais está documentada e contrasta com a narrativa de abandono ou maus-tratos posteriores à operação de resgate. A evolução clínica dos animais demonstra a efetividade das medidas adotadas após o resgate. Os quatro cães que ainda demandam maior atenção seguem recebendo cuidados e tratamentos específicos.
Casos de maior gravidade:
O Cão Black Black foi encontrado em estado crítico e encaminhado imediatamente ao hospital veterinário. Durante laparotomia exploratória, foram constatadas peritonite extensa, presença de conteúdo fecal e biliar na cavidade abdominal, isquemia, necrose e laceração duodenal com seis centímetros, em região anatômica próxima a estruturas vitais. A equipe médico-veterinária concluiu pela inviabilidade terapêutica. A eutanásia foi realizada em 30 de julho de 2026, ainda sob anestesia, mediante indicação técnica e autorização formal, para evitar o prolongamento da dor e do sofrimento do animal, dada a gravidade irreversível do quadro identificado durante o atendimento especializado.
A Cadela Princesa também foi classificada em risco vermelho e encaminhada para atendimento hospitalar. Apresentava anemia significativa e necessitou de transfusão sanguínea. Recebeu alta em 28 de julho de 2026 e permaneceu sob cuidados específicos. Avaliações posteriores registraram sopro cardíaco, formações nodulares e alterações esplênicas e gástricas ainda em investigação, com acompanhamento clínico, hematológico, cardiológico e por exames de imagem. Princesa está visivelmente mais forte e disposta a cada dia.
O acolhimento dos cães no Antigo Estaleiro COREMA - apesar de possuir caráter excepcional, emergencial e transitório - foi planejado para ter estrutura física digna e adequada, com 16 baias com solários, limpeza periódica, acompanhamento individualizados dos animais, alimentação especial, medicamentos, exames, tratamentos e acompanhamento médico-veterinário contínuo, atuação diária de cuidador e adestrador, com manejo, passeios, carinhos e medidas de redução de ansiedade e estresse, além da segurança 24h e visita periódica de representantes de órgãos institucionais.
A versão apresentada pela Brigada K9 é de que não houve notificação prévia ou apresentação de ofício formal antes da retirada. A entidade também sustenta que França, apontado como responsável pelos animais, está impedido de acessar o local onde os cães foram levados.
Reunião no Ministério Público
Em publicação nas redes sociais, a Brigada K9 afirmou que participou de uma reunião no Ministério Público com representantes do Estado, da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis) e da Diretoria de Proteção Animal (DIPA).
Segundo a entidade, durante o encontro, representantes do poder público teriam admitido não possuir outro espaço disponível para receber os animais caso eles fossem retirados das instalações atuais.
A K9 também afirmou que apresentou documentação referente à sua constituição e à condição de utilidade pública, incluindo ata, estatuto e publicação no Diário Oficial.
Entidade relata desaparecimento e morte de cães
Outro ponto apresentado pela Brigada K9 ao Ministério Público envolve a situação dos animais retirados do espaço.
Segundo a entidade, França cobrou explicações sobre o desaparecimento de um dos cães e sobre a lesão e posterior eutanásia de outro animal. Ainda conforme a publicação, durante a reunião, o comandante teria tomado conhecimento de que outros quatro cães também estariam desaparecidos.
A Brigada K9 não apresentou, na publicação, informações independentes que comprovem as circunstâncias dos desaparecimentos ou da morte do animal. As acusações deverão ser esclarecidas pelas autoridades responsáveis pela custódia dos cães.

MP dá prazo para apresentação de documentos
Ainda de acordo com a Brigada K9, o Ministério Público estabeleceu prazo de cinco dias para que a instituição apresente laudos médicos veterinários, documentos e comprovantes relacionados aos cuidados prestados aos animais que estavam sob sua responsabilidade.
A medida ocorre após uma denúncia de supostos maus-tratos atribuída à DIPA contra a instituição.
A Brigada K9 afirma que continua sem autorização para acessar os cães e que, na data da publicação, e que está há mais de um mês sem contato com os animais.
O Ministério Público foi procurado pela reportagem para esclarecer as medidas adotadas, a situação dos cães, as denúncias apresentadas e o prazo concedido à Brigada K9, mas não houve resposta até o momento desta publicação.
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