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De JHSF a Vorcaro: Moraes atravessa uma década entre suspeitas e viradas políticas

Em 2016, Alexandre de Moraes era ministro da Justiça de Michel Temer e recebia críticas do PT

Por Da redação.

Em 2016, Alexandre de Moraes era ministro da Justiça de Michel Temer e recebia críticas do PT; naquele mesmo ano, Luiz Fux arquivou uma petição relacionada a pagamentos feitos ao escritório de advocacia de Moraes. Anos depois, Moraes se tornou relator de processos contra Jair Bolsonaro, enquanto Fux passou a divergir publicamente de decisões do colega em casos envolvendo o ex-presidente.

A política brasileira passou por mudanças significativas ao longo da última década. Entre os personagens que estiveram no centro dessas transformações estão os ministros Alexandre de Moraes e Luiz Fux, que ocupam cadeiras no Supremo Tribunal Federal (STF).

+ Entenda como o caso Banco Master provocou uma crise interna no STF

Em 2016, Alexandre de Moraes era ministro da Justiça de Michel Temer e recebia críticas do PT. | Foto: Valdenio Vieira/PR

Em 2016, Moraes estava à frente do Ministério da Justiça no governo Michel Temer e era criticado pelo PT. Naquele período, o partido o chamava de “golpista” em publicações relacionadas ao governo Temer e à atuação do então ministro.

Também naquele ano, Moraes esteve envolvido em uma controvérsia relacionada à Operação Acrônimo, investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.

Moraes se tornou relator de processos contra Jair Bolsonaro, enquanto Fux passou a divergir publicamente de decisões do colega. | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os pagamentos da JHSF

Documentos apreendidos pela Polícia Federal em agosto de 2016 na sede da JHSF Participações, empresa investigada pela Operação Acrônimo, indicavam pagamentos de pelo menos R$ 4 milhões, entre 2010 e 2014, ao escritório de advocacia de Alexandre de Moraes.

Na época dos pagamentos, Moraes não ocupava cargo público e atuava como advogado. Uma das planilhas encontradas pela PF trazia o nome “Alexandre Moraes”, valores e as siglas “PT” e “PSDB”. Os registros estavam associados à Parkbem, antiga empresa de estacionamentos do grupo JHSF.

A defesa da JHSF informou aos investigadores que os valores correspondiam a honorários advocatícios e apresentou recibos e notas fiscais. Posteriormente, outras planilhas apontaram que os pagamentos ao escritório somavam cerca de R$ 4 milhões.

A coordenação da Operação Acrônimo solicitou que o caso fosse encaminhado ao Supremo para avaliação sobre a necessidade de abertura de inquérito, em razão do cargo ocupado por Moraes naquele momento.

O caso foi distribuído ao ministro Luiz Fux. Em 22 de setembro de 2016, oito dias depois de a documentação chegar ao STF, Fux determinou o arquivamento da petição, sem abertura de inquérito ou realização de medidas investigativas. Segundo a Folha de S.Paulo, a decisão foi monocrática e não houve consulta prévia à Procuradoria-Geral da República. Fux citou dispositivo do regimento do STF que permite o arquivamento quando o fato narrado evidentemente não constitui crime.

Moraes afirmou que os pagamentos eram legais. O episódio, portanto, envolveu questionamentos sobre os valores pagos por uma empresa investigada ao escritório do então advogado, mas não resultou em comprovação de que Moraes tivesse recebido dinheiro ilícito. O caso foi arquivado por Fux.

Em 22 de setembro de 2016, oito dias depois de a documentação chegar ao STF, Fux determinou o arquivamento da petição. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

A indicação de Moraes ao STF

A controvérsia voltou a ser discutida meses depois, quando Moraes foi indicado por Michel Temer para ocupar uma vaga no Supremo.

Durante sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em fevereiro de 2017, o então indicado foi questionado sobre os pagamentos feitos pela JHSF. Moraes afirmou que se tratavam de contratos de prestação de serviços advocatícios e que os pagamentos tinham documentação fiscal e tributária.

A controvérsia voltou a ser discutida meses depois, quando Moraes foi indicado por Michel Temer para ocupar uma vaga no Supremo. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A indicação também foi criticada pelo PT, que naquele momento fazia oposição ao governo Temer. O partido havia atacado a atuação de Moraes como ministro da Justiça e se manifestado contra sua indicação ao Supremo.

Moraes acabou aprovado pelo Senado e tomou posse como ministro do STF em março de 2017.

De ministro criticado pelo PT a relator de processos contra Bolsonaro

A posição de Moraes no cenário político e judicial brasileiro mudou nos anos seguintes.

Como ministro do STF e, posteriormente, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele passou a atuar em processos envolvendo Jair Bolsonaro, seus aliados e apoiadores.

Moraes foi relator da ação penal que julgou Bolsonaro e outros réus acusados de participação em uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Durante o julgamento, em setembro de 2025, apresentou voto pela condenação dos acusados.

Moraes foi relator da ação penal que julgou Bolsonaro e outros réus acusados de participação em uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A atuação do ministro passou a ser fortemente criticada por Bolsonaro e por integrantes do bolsonarismo, que questionaram decisões tomadas por Moraes em diferentes processos.

Assim, o ministro que em 2016 era alvo de críticas do PT por sua atuação no governo Temer passou, anos depois, a ocupar uma posição central em processos judiciais que atingiram o principal líder político do bolsonarismo.

E Fux, que havia arquivado o caso?

A história de Luiz Fux também ganhou novos contornos ao longo desse período.

Em 2016, foi Fux quem determinou o arquivamento da documentação encaminhada ao STF sobre os pagamentos feitos pela JHSF ao escritório de Moraes.

Anos depois, os dois ministros passaram a divergir publicamente em julgamentos envolvendo Jair Bolsonaro.

Em julho de 2025, Fux abriu divergência na Primeira Turma do STF em relação a uma decisão de Moraes que havia determinado medidas cautelares contra Bolsonaro. Enquanto Moraes e a maioria da Turma defenderam a manutenção das medidas, Fux votou contra.

Em julho de 2025, Fux abriu divergência na Primeira Turma do STF em relação a uma decisão de Moraes. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Dois meses depois, durante o julgamento da ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado, Fux novamente apresentou divergências em relação ao voto de Moraes, relator do processo.

Entre os pontos questionados estavam a competência do STF para julgar o caso, questões relacionadas ao acesso da defesa aos documentos e a tipificação de determinados crimes.

Fux votou pela nulidade do processo e pela absolvição de Bolsonaro e de outros réus, em posição diferente daquela adotada por Moraes e pela maioria da Primeira Turma.

Moraes é ministro do STF e relator de processos que atingiram Jair Bolsonaro e integrantes de seu grupo político. | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Moraes, Vorcaro e o caso Banco Master

O caso do Banco Master, que veio à tona em novembro de 2025 após a liquidação da instituição pelo Banco Central e a prisão de seu dono, Daniel Vorcaro, transformou-se em uma crise que alcançou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF).

O episódio, inicialmente tratado como uma suspeita de fraude bilionária, passou a envolver autoridades dos Três Poderes e provocou um conflito entre ministros da própria Corte.

Após a prisão de Vorcaro, a Polícia Federal apreendeu o celular do ex-banqueiro. Segundo os investigadores, o aparelho continha mensagens e registros que apontariam para uma extensa rede de contatos de Vorcaro com políticos, servidores públicos e integrantes do sistema financeiro.

Após a prisão de Vorcaro, a Polícia Federal apreendeu o celular do ex-banqueiro. | Foto: Divulgação

Toffoli deixa relatoria, e Mendonça assume o caso

Inicialmente, o ministro Dias Toffoli era responsável por supervisionar, no STF, as investigações relacionadas ao Banco Master. Em fevereiro, porém, o caso passou para o ministro André Mendonça, diante de suspeitas relacionadas a negócios de Toffoli com um fundo ligado ao banco.

Toffoli deixou a relatoria após surgirem suspeitas sobre sua relação com Daniel Vorcaro e negócios envolvendo um fundo ligado a um resort da família do ministro. A Polícia Federal também apontou indícios que levantaram dúvidas sobre uma possível influência de Vorcaro em um julgamento de interesse do banco.

Os investigadores, no entanto, destacaram que os elementos ainda precisavam ser aprofundados e não permitiam conclusões definitivas.

Ao assumir a relatoria, Mendonça passou a conduzir as decisões judiciais relacionadas à investigação. Em 1º de setembro, ele determinou a retirada do sigilo de documentos que expuseram parte da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Um dos principais pontos da investigação envolve a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A decisão provocou uma reação de Moraes. O ministro utilizou relatórios de inteligência da Polícia Federal, que não possuem caráter probatório, para questionar a atuação de Mendonça e pediu à Presidência do Supremo que o colega fosse investigado por abuso de autoridade.

Mendonça reagiu determinando a destituição do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. O ministro sustentou que a PF estaria monitorando integrantes do STF.

A decisão foi posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino, que determinou o retorno dos dois dirigentes aos cargos.

Mensagens entre Moraes e Vorcaro entram no centro da crise

Um dos principais pontos da investigação envolve a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Em setembro, Mendonça retirou o sigilo de documentos que mostravam diálogos entre o ministro e o ex-banqueiro.

As mensagens sugerem que Moraes conversava com Vorcaro sobre a possibilidade de uma operação da Polícia Federal contra o empresário. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro teria perguntado ao ministro:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Dois dias depois, o ex-banqueiro foi preso no aeroporto enquanto tentava deixar o Brasil.

O relatório da Polícia Federal também apontou contratos milionários entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.

A Corte deverá avaliar se existem elementos para abrir uma investigação contra Moraes. | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Um dos contratos, no valor de R$ 131 milhões, teria sido revisado e editado pelo próprio ministro, segundo os investigadores. Outro acordo, de R$ 50 milhões, previa pagamentos em dinheiro ou bens, incluindo uma proposta com cotas de um jatinho e de um helicóptero.

A PF também encontrou registros de contatos frequentes entre Moraes e Vorcaro, além de informações sobre encontros pessoais. Os documentos citam ainda uma viagem a Campos do Jordão, em dezembro de 2023, para a qual Vorcaro teria organizado uma estrutura especial para convidados classificados como “ultra VIP”.

O escritório de Viviane Barci de Moraes afirmou que não atuou em causas de Vorcaro no STF e que o contrato foi suspenso após a liquidação do Banco Master.

Cronologia

Em 2016:

  • Moraes era ministro da Justiça de Michel Temer e alvo de fortes críticas do PT;
  • o PT o chamava publicamente de “golpista”;
  • documentos da Operação Acrônimo envolvendo a JHSF e pagamentos ao escritório de Moraes chegaram ao STF;
  • Luiz Fux arquivou a petição relacionada ao caso;
  • Moraes ainda nem fazia parte do Supremo.

Em 2026:

  • Moraes é ministro do STF e relator de processos que atingiram Jair Bolsonaro e integrantes de seu grupo político;
  • o bolsonarismo transformou o ministro em um dos principais alvos de sua oposição ao Supremo;
  • setores do PT que antes criticavam Moraes passaram a defendê-lo;
  • Fux, que havia arquivado a petição envolvendo Moraes em 2016, tornou-se um dos ministros que mais divergiram dele em julgamentos relacionados ao ex-presidente;
  • Alexandre de Moraes vira ponto central no caso Banco Master após conversas entre o ministro e Daniel Vorcaro serem encontradas no celular do banqueiro durante investigação da Polícia Federal. Descoberta vem gerando uma crise interna no STF.

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