Fim do "político morno": Malu Fontes explica o porquê de a polarização ter mudado o panorama
Jornalista e professora Malu Fontes avalia mudanças no comportamento do eleitorado, avanço da direita nas ruas e transformações no voto evangélico
Por João Tramm.
A jornalista e professora Malu Fontes analisou o cenário de polarização política no Brasil e avaliou que o acirramento das disputas eleitorais tem reduzido o espaço para lideranças com discursos moderados. Durante participação no programa Bahia Notícias no Ar, da Antena 1 Salvador (100.1 FM), a articulista afirmou que o ambiente político passa por mudanças.
Na entrevista, Malu também abordou a disputa por espaços públicos entre os campos ideológicos, as mudanças na representação evangélica no Congresso Nacional e as transformações políticas no Nordeste. A jornalista analisou ainda como os benefícios sociais passaram a ser percebidos por parte da população e o uso do medo de perder direitos como estratégia eleitoral.
Um retrato disso é que tradicionais nomes da política baiana não conseguiram se reeleger, tanto que a taxa de renovação política foi de praticamente 30%. Além disso, dos vereadores de Salvador que tentaram alcançar voos mais altos, apenas um conseguiu sucesso.

Malu Fontes vê perda de espaço para políticos moderados
Ao avaliar o comportamento dos eleitores, Malu Fontes afirmou que a polarização brasileira chegou a um estágio de difícil reversão no curto prazo. Na análise da jornalista, políticos que adotam posições conciliadoras enfrentam dificuldades para conquistar espaço em um ambiente marcado por discursos mais incisivos.
A professora também ponderou que as transformações políticas não acontecem de forma instantânea, mas indicam uma mudança na maneira como a sociedade reage às lideranças e aos discursos públicos. Nesse contexto, a moderação, que historicamente caracterizou parte dos representantes do centro político, estaria perdendo apelo diante de setores mais mobilizados do eleitorado.
“Essa pessoa mais morna, esse deputado mais equilibrado, esse vereador, esse deputado federal, ele está com os dias contados nesta sociedade”, afirmou a professora. Para ela, a polarização se consolidou de maneira intensa e alterou as expectativas do eleitorado em relação à postura dos representantes políticos.
Disputa política também ocupa as ruas
Outro ponto destacado por Malu Fontes foi a presença dos grupos políticos nos espaços públicos. Segundo a jornalista, a direita ampliou sua atuação nas ruas, enquanto setores da esquerda e do movimento estudantil passaram a enfrentar o desafio de retomar esses ambientes como locais de mobilização.
A articulista relacionou esse movimento à necessidade de superar a atuação restrita às redes sociais. Ao comentar a mobilização estudantil, destacou a importância de manifestações presenciais para ampliar a participação política.
“E essa rua que os estudantes estão dizendo assim: 'Não, pera aí, vamos para a rua de novo, porque não é tuitando, não é fazendo post do sofá que eu vou mudar o mundo'”, afirmou.
Voto evangélico muda perfil de representação no Congresso
As mudanças no comportamento do eleitorado evangélico também fizeram parte da análise. Para Malu Fontes, a redução da presença de pastores tradicionais na representação parlamentar não significa necessariamente uma perda de influência política desse segmento religioso, mas uma transformação no perfil de liderança que conquista sua identificação.
Na avaliação da jornalista, parte desse eleitorado passou a se identificar com políticos que adotam discursos mais combativos, em vez de se limitar a representantes ligados institucionalmente às igrejas.
“Não é que o voto evangélico perdeu território, mas nem o voto evangélico acha suficiente que ele seja representado por esse tom um pouco evangélico e bíblico do pastor. O voto evangélico foi para o Nikolas da vida, que representa esse eleitor”, destacou.
Malu acrescentou que, para esse público, a representação religiosa precisa estar acompanhada de uma comunicação mais enfática.
“Essa voz evangélica se tornou morna para esse eleitorado vocalizado e inflamado. Ele quer que alguém fale da importância da igreja, mas que fale com fogo na língua”, afirmou.
Nordeste passa por mudanças no comportamento eleitoral
A ideia de que o Nordeste funciona como um bloco eleitoral homogêneo também foi questionada pela professora. Embora estados como Bahia e Piauí mantenham forte identificação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Malu apontou que o avanço de forças conservadoras em outras áreas da região demonstra a diversidade do cenário político nordestino.
Ao analisar o desempenho eleitoral na região, a jornalista ponderou que o resultado não correspondeu integralmente às expectativas de quem apostava em uma atuação uniforme do eleitorado nordestino em favor de Lula.
“Quando a gente falava 'o Nordeste vai salvar o Lula', o Nordeste nesta eleição não salvou o Lula. O Nordeste impediu um fracasso maior”, avaliou.
Malu também mencionou a perda de espaço de famílias políticas tradicionais como sinal de mudanças na estrutura de poder regional. Como exemplo, citou o grupo Sarney, no Maranhão.
Assista à entrevista completa:
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