Siga o Aratu ON no GoogleE veja as notícias do Brasil e da Bahia com destaque nas suas buscas.
Adicionar

Pode falar de política no trabalho? Especialista explica limites e orienta como denunciar assédio

Com o segundo turno previsto para o dia 25 de outubro, divergências políticas podem resultar em provocações

Por Bruna Castelo Branco.

Comentários em grupos de equipes, piadas sobre candidatos e discussões entre colegas podem gerar conflitos no ambiente de trabalho durante o período eleitoral. Com o segundo turno marcado para o dia 25 de outubro, divergências políticas podem resultar em provocações, constrangimentos e problemas de convivência entre funcionários.

Segundo o professor Fernando Eduardo Cardoso, coordenador dos cursos de Administração e de Gestão de Recursos Humanos da UNIASSELVI, o desafio das empresas é estabelecer limites para comportamentos inadequados sem impedir que os funcionários expressem suas opiniões políticas.

Com o segundo turno previsto para o dia 25 de outubro, divergências políticas podem resultar em provocações. | Foto: Ilustrativa/Pexels

"A empresa não precisa controlar o que as pessoas pensam, mas precisa deixar claro como os colaboradores podem tratar uns aos outros dentro do ambiente de trabalho", afirma.

O tema ganhou relevância neste ano. Até 25 de setembro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 614 denúncias de assédio eleitoral, número sete vezes maior que as 85 registradas até o fim de setembro de 2022.

Uma pesquisa realizada pela Heach Recursos Humanos com 2.080 profissionais aponta que 54,4% evitam expor opiniões políticas por medo de sofrer prejuízos no trabalho. Outros 23,5% afirmaram já ter passado por algum tipo de coação direta ou indireta por parte de chefes.

Quando uma opinião passa a ser um problema no trabalho?

De acordo com Fernando, divergências de opinião fazem parte da convivência em sociedade e não representam, por si só, um problema para as empresas. A situação muda quando a manifestação política ultrapassa os limites do respeito e passa a atingir outros trabalhadores.

“O limite aparece quando a manifestação deixa de ser uma opinião sobre ideias, propostas ou decisões e passa a atingir a dignidade, a integridade ou os direitos de outra pessoa. Insultos, ameaças, constrangimentos, humilhações, perseguições e tratamento discriminatório exigem uma resposta institucional independentemente da posição política de quem pratica ou sofre a conduta”, diz.

O especialista recomenda que as empresas tenham códigos de conduta com regras objetivas relacionadas a respeito, linguagem, ameaças, discriminação, assédio e utilização dos canais corporativos.

Até 25 de setembro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 614 denúncias de assédio eleitoral. | Foto: Ilustrativa/Pexels

“A legislação brasileira já prevê, por exemplo, medidas de prevenção e combate ao assédio e a outras formas de violência no trabalho, incluindo regras de conduta e procedimentos para recebimento e apuração de denúncias. Não se trata de criar uma espécie de ‘polícia das opiniões’, mas o estabelecimento de regras de convivência aplicáveis a todos”, destaca.

As orientações também devem ser aplicadas aos ambientes virtuais utilizados pelas equipes. Grupos corporativos em aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, também fazem parte da rotina profissional e devem seguir as regras estabelecidas pelas empresas.

"O grupo corporativo de mensagens continua sendo um espaço de trabalho e precisa obedecer às regras profissionais da organização", afirma Fernando.

Como a liderança deve agir diante de conflitos políticos?

No contexto eleitoral, o Ministério Público do Trabalho (MPT) também caracteriza como assédio eleitoral situações de coação, intimidação, ameaça ou constrangimento relacionadas à manifestação ou à escolha política do trabalhador.

Nesse cenário, a atuação dos líderes é apontada como importante para preservar a convivência entre os integrantes das equipes.

“O papel da liderança em um conflito político não é decidir quem está certo politicamente, mas garantir que ninguém precise trabalhar em um ambiente de hostilidade. Por isso, o primeiro passo do gestor deve ser retirar a discussão do campo político e trazê-la para o campo profissional: qual comportamento ocorreu, qual regra de convivência foi afetada e qual impacto isso está produzindo na equipe. Isso permite que o líder intervenha sem precisar concordar ou discordar das posições apresentadas”, pondera Fernando.

Em situações pontuais, uma conversa mediada pelo gestor pode ser suficiente para evitar que o conflito se agrave. A participação do setor de Recursos Humanos pode ser necessária quando o problema começa a afetar o desempenho ou o relacionamento da equipe.

“Quando existe disposição das duas partes para reconstruir a relação, o líder pode ouvir separadamente os envolvidos, estabelecer os fatos básicos, reforçar as regras de convivência e combinar como a relação profissional deverá continuar. A participação do RH passa a ser importante quando o conflito começa a afetar desempenho, clima, relacionamento ou segurança psicológica da equipe, ou quando há repetição da conduta. Compliance e Jurídico devem ser acionados quando surgem indícios de violação de normas internas, discriminação, assédio, ameaça, retaliação ou outras situações que possam produzir consequências disciplinares ou jurídicas”, explica.

No contexto eleitoral, o Ministério Público do Trabalho (MPT) também caracteriza como assédio eleitoral situações de coação. | Foto: Ilustrativa/Pexels

Como denunciar situações de assédio no ambiente de trabalho?

A existência de canais de denúncia é apontada como uma das medidas para identificar desvios de conduta e manter um ambiente profissional ético e seguro.

Segundo o professor da UNIASSELVI, os funcionários precisam conhecer esses canais e saber como funciona o processo de recebimento e apuração das denúncias. Também é necessário deixar claro quem é responsável por receber, analisar e encaminhar cada caso.

“A Lei nº 14.457/2022 já exige esse tipo de procedimento das empresas obrigadas a manter a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (Cipa), com anonimato para quem denuncia”, destaca.

Em caso de constrangimento, ameaça, pressão ou outra conduta relacionada à escolha ou manifestação política no ambiente profissional, o trabalhador pode adotar algumas medidas práticas:

  • Registre o ocorrido: anote data, horário, local, pessoas envolvidas e o que foi dito ou feito. Quanto mais objetiva for a descrição dos fatos, melhor.
  • Guarde as provas disponíveis: mensagens, e-mails, áudios, documentos, comunicados e outros registros que possam ajudar a demonstrar o ocorrido devem ser preservados.
  • Procure os canais internos: a denúncia pode ser encaminhada ao RH, à ouvidoria, ao canal de ética, ao superior hierárquico ou a outro mecanismo formal disponibilizado pela empresa.
  • Verifique as regras de confidencialidade: antes de relatar o caso, o trabalhador pode consultar como funciona o canal, quem terá acesso à informação e se existe possibilidade de denúncia anônima.
  • Evite responder com novas agressões: diante de provocações ou ameaças, a orientação é preservar os registros e utilizar os mecanismos formais de apuração, em vez de ampliar o conflito.
  • Busque ajuda externa quando necessário: situações que envolvam possível assédio eleitoral podem ser comunicadas ao Ministério Público do Trabalho (MPT). O trabalhador também pode procurar seu sindicato ou orientação jurídica para avaliar as medidas cabíveis.
  • Em situações de ameaça ou risco à integridade física, a prioridade deve ser a segurança da pessoa envolvida e, conforme a gravidade do caso, o acionamento das autoridades competentes.

A denúncia deve descrever os fatos de maneira objetiva, sem necessidade de apresentar uma conclusão sobre a conduta. Cabe à empresa ou ao órgão responsável pelo recebimento avaliar as informações e realizar a apuração conforme os procedimentos aplicáveis.

A recomendação também vale para situações ocorridas em grupos corporativos de mensagens. Prints e outros registros digitais podem ajudar a documentar o contexto da ocorrência, especialmente quando houver ofensas, ameaças, pressão ou constrangimento relacionado à manifestação política do trabalhador.

Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).

Comentários

Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Aratu On.

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.