O eleitor negacionista está aí; tomara que você já tenha conhecido um
Todos conhecemos quem se comporta como um eleitor negacionista: o exemplar de esquerda e o de direita compartilham comportamento, gestual e vocabulário. Nenhum gosta de ouvir verdades incômodas sobre o político de estimação
Por Pablo Reis.
Todo mundo conhece um eleitor negacionista — vote ele num político negacionista, ou não. E isso não é um fenômeno recente, e nem sequer diz respeito só a uma campanha eleitoral. No final do ano de 1954, norte-americanos ansiosos se reuniram numa casa em Chicago. Não se tratava de Ação de Graças. Eles esperavam o fim do mundo. Uma dona de casa chamada Dorothy Martin tinha anunciado que a Terra não passaria daquele 20 de dezembro: uma inundação varreria o continente à meia-noite, e discos voadores resgatariam os fiéis.
Alguns tinham vendido bens, abandonado empregos, até rompido com a família. O que aconteceu depois de meia noite? Nada aconteceu. E muita gente apostou que um misto de vergonha e silêncio traria a sanidade de volta àqueles apocalípticos. Foi o contrário: o grupo concluiu que sua fé havia salvado o planeta. Como consequência, passaram a ir às ruas evangelizar.
A história não termina por aí. Um psicólogo social chamado Leon Festinger ficou infiltrado entre os devotos e publicou, três anos depois, a teoria da dissonância cognitiva. É complexa, mas um bom resumo é o seguinte: diante de um fato que contraria a sua identidade, seu senso de pertencimento, o ser humano prefere reformar o fato a mudar a si mesmo. Setenta e dois anos depois, o experimento de Festinger se repete todo santo dia. Basta uma leitura atenta ao grupo de WhatsApp da família. E, nesse período eleitoral, a dissonância cognitiva alcança vários picos no mesmo dia.
Todos conhecemos quem se comporta como um eleitor negacionista. A espécie tem propriedades notavelmente estáveis. E sem especificidades ideológicas: o exemplar de esquerda e o de direita compartilham comportamento, gestual e vocabulário. Não gosta de ouvir críticas nem constatações incômodas sobre seu político de estimação. Recusa-se a ler a denúncia, a apoiar a investigação, a fazer uma simples autorreflexão de dez segundos. Foge do debate que exponha seu postulante a qualquer desconforto argumentativo como um vampiro foge da cabeça de alho, da cruz e da estaca de madeira.

Shazam! Negação
E ele não obedece a um estereótipo. No disfarce civil, é advogado, empresária, sindicalista, estudante, professora. Basta a noite cair — sob a forma de um grupo mais agitado ou de um almoço de domingo — e a identidade secreta se revela: Shazam! Negação!
Aqui é onde o diagnóstico precisa parar de ser confortável para nós, os que nos julgamos do lado da informação. A pesquisa recente é humilhante para as pessoas instruídas. O psicólogo Dan Kahan, professor da Universidade Yale, mediu a capacidade de sujeitos qualificados em matemática de interpretar corretamente uma tabela de dados.
Quando o tema era neutro — a eficácia de uma pomada para coceira —, os mais habilidosos acertavam mais. Quando a mesma tabela, com os mesmos números, tratava de controle de armas, os mais habilidosos erravam de forma mais sofisticada, usando toda a sua competência para chegar à conclusão que o grupo deles exigia. Kahan chamou isso de cognição identitária protetora: a inteligência não é um antídoto contra o viés, é uma arma a serviço dele.
O problema do eleitor negacionista não é a informação que falta, ou incapacidade de interpretá-la corretamente. É o preço da traição ao grupo.

Na Bahia, isso é observável em duas eras. Durante décadas, o estado foi organizado em torno de uma hegemonia que tratava crítica como deslealdade; desde 2007, com a alternância no Palácio de Ondina, montou-se do outro lado um antagonismo que chega ao ponto de uma liturgia simétrica: seus próprios santos, seus próprios hereges e sua própria regra de silêncio.
A gramática é idêntica, só muda o sotaque. Pesquisa desfavorável? Instituto comprado. Comunicador que aponta contradição? É lacrador, é chapéu de alumínio ou - na versão mais cínica e pragmática - é alguém que aluga opinião num leilão de descredibilidade. O doutor Simão Bacamarte, em O Alienista, internou meia Itaguaí na Casa Verde e, ao concluir que o único espírito totalmente equilibrado e são da vila era o próprio, internou-se a si mesmo. É um gesto anacrônico de lucidez, escrito por Machado de Assis, lá em 1882. Portanto, jamais ambicionaremos vê-lo repetido num grupo de WhatsApp.

O voto que cobra mais inimigos
É fácil, portanto, raso, colocar esse eleitor como vítima do sistema. Ele é cliente preferencial deste. Esse voto quase devocional é o mais barato que existe para quem o recebe, porque fé não exige prestação de contas. O eleitor negacionista dispensa programa de governo, dispensa meta, dispensa balanço de mandato; cobra apenas a produção regular de inimigos.
É o consumidor ideal de uma política que terceirizou o convencimento para o algoritmo e que trocou proposta por pertencimento. Acredite: está por todo lado, com todas colorações e, lá na urna, vai deixar digitais em vários números diferentes de partidos.
O jurista americano e professor de Direito Cass Sunstein publicou, em 2017, um livro sobre como a democracia fica mais dividida a partir da era das redes sociais. Ele mostrou que grupos de pessoas que só deliberam entre iguais não chegam a consensos melhores, chegam a posições mais extremas do que as de qualquer um de seus membros no início.
Sabe o que isso lembra? O filme 12 Homens e uma Sentença. Em 1957, o diretor Sidney Lumet fez o jurado interpretado por Henry Fonda convencer os outros não com paixão, mas com dúvida metódica. Sem a possibilidade de alguém mudar de ideia, a sala não é um júri. É um pelotão. Em última análise, a democracia é aquele recinto, tenso, claustrofóbico, mal iluminado.
Pense na última vez em que você mudou de opinião sobre alguma coisa relevante em política. Não sobre um ajuste de tática, nem sobre uma antipatia pessoal: uma convicção. Quem forneceu o argumento? Se a resposta é "ninguém", ou se a data é anterior a 2018, talvez a bolha não esteja do lado de fora da janela. Todo mundo conhece um eleitor negacionista. E se você não conhece nenhum, pode ser que você seja ele mesmo.
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