Bahia lidera afastamentos no trabalho por transtornos mentais no Nordeste

Atualização da NR-1 amplia responsabilidade das empresas na prevenção de transtornos mentais no ambiente de trabalho

Por Laraelen Oliveira.

Com 22.587 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais registrados em 2025, a Bahia se tornou o estado com maior número de licenças concedidas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) na região Nordeste. O cenário ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir das empresas o gerenciamento formal dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ambientes de trabalho saudáveis contribuem para a redução do absenteísmo e aumentam o bem-estar dos colaboradores/Foto: Reprodução

Bahia registra 22 mil afastamentos relacionados á transtornos mentais e lidera o Nordeste 

Em todo o Brasil, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios relacionados a transtornos mentais em 2025, um aumento de 15,66% em comparação com o ano anterior. Entre os principais diagnósticos estão ansiedade e depressão. Os casos de burnout também apresentaram crescimento expressivo, saltando de 1.760 para quase 7 mil registros no período.

Na Bahia, os 22.587 afastamentos representaram mais de um quarto dos benefícios concedidos em toda a região Nordeste, colocando o estado à frente de Pernambuco e Ceará no ranking regional. Outro dado relevante mostra que 63,46% dos benefícios foram destinados a mulheres, evidenciando fatores estruturais que influenciam a saúde mental no ambiente profissional.

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O impacto dos transtornos mentais no mercado de trabalho vai além dos afastamentos. Empresas com programas de apoio psicológico registram maior engajamento e menor rotatividade de funcionários/Foto: Reprodução 

Segundo Juliana Filizzola, especialista em escuta organizacional e governança corporativa, os números refletem situações que poderiam ter sido identificadas previamente pelas empresas.

“Por trás de cada afastamento existe uma história que, muitas vezes, não foi ouvida a tempo. São sinais que indicavam que algo não estava bem e que acabaram sendo ignorados”, afirma.

NR-1 amplia responsabilidade das empresas

A atualização da NR-1, que entrou em vigor em maio de 2026, determina que as empresas identifiquem, avaliem e registrem fatores como estresse crônico, assédio moral, sobrecarga de trabalho e pressão excessiva por resultados em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Com a nova regulamentação, organizações que não realizarem esse monitoramento poderão ser enquadradas por descumprimento das normas de segurança e saúde no trabalho.

A nova NR-1 reforça que a saúde psicológica dos trabalhadores passou a ser considerada um fator estratégico para a sustentabilidade das organizações/Foto: Freepik

Além disso, decisões recentes da Justiça do Trabalho têm reconhecido o burnout como doença ocupacional, resultando em indenizações e outras responsabilidades para empregadores. Nesse contexto, a ausência de documentação relacionada aos riscos psicossociais pode ser interpretada como falha na gestão do ambiente laboral.

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“A partir da NR-1, a alegação de desconhecimento deixa de ser uma justificativa. As empresas precisam compreender que a gestão da saúde mental também é uma obrigação legal”, alerta Filizzola.

Silêncio organizacional dificulta prevenção a afastamento causado por transtornos mentais 

Especialistas apontam que um dos fatores associados ao aumento dos afastamentos é o chamado silêncio organizacional. Dados da pesquisa Trabalho Sem Assédio 2025, realizada pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, mostram que quase metade dos profissionais brasileiros já enfrentou situações de assédio moral no trabalho. No entanto, 48,5% das vítimas afirmaram não denunciar os episódios, principalmente por medo de retaliações ou demissão.

Embora muitas empresas possuam canais de denúncia e ouvidoria, a falta de confiança nesses mecanismos ainda é um desafio. Sem processos estruturados de acolhimento e acompanhamento, relatos importantes podem deixar de gerar ações preventivas.

O burnout foi reconhecido pela OMS como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho/Foto: Freepik

“Quando a escuta organizacional não transmite segurança, os riscos deixam de ser comunicados e passam a crescer silenciosamente. A escuta contínua permite identificar mudanças de comportamento, queda de engajamento e conflitos antes que se transformem em problemas mais graves”, explica a especialista.

Os prejuízos relacionados à saúde mental não se limitam às licenças previdenciárias. Empresas envolvidas em processos por burnout, assédio moral e outras questões psicossociais podem enfrentar custos com indenizações, pensionamentos e danos à reputação institucional.

Além das consequências jurídicas, especialistas destacam que organizações associadas a ambientes de trabalho prejudiciais tendem a enfrentar dificuldades na atração e retenção de talentos, especialmente em um cenário em que profissionais valorizam cada vez mais qualidade de vida e bem-estar no trabalho.

Estudo aponta crescimento global de 95,5% nos transtornos mentais

A preocupação com a saúde mental também aparece em pesquisas internacionais. Um estudo publicado na revista científica The Lancet, com base nos dados do Global Burden of Disease (GBD) 2023, revelou que os transtornos mentais atingiram o maior nível já registrado no mundo.

Entre 1990 e 2023, o número de casos aumentou 95,5%, passando de 599 milhões para 1,17 bilhão de pessoas afetadas em 204 territórios analisados, incluindo o Brasil. 

Mulheres costumam acumular jornadas profissionais e domésticas, fator frequentemente associado ao aumento dos índices de transtornos mentais/Foto: Reprodução 

O levantamento aponta diferenças entre os gêneros. As mulheres registraram taxas mais elevadas de ansiedade e depressão, enquanto os homens apresentaram maior incidência de transtornos do neurodesenvolvimento e transtornos de conduta. 

A pesquisa avaliou 12 transtornos mentais diferentes e identificou ansiedade e depressão como os diagnósticos mais frequentes globalmente, reforçando a necessidade de estratégias voltadas à promoção da saúde mental tanto na sociedade quanto no ambiente corporativo.

Veja onde buscar atendimento psicológico gratuito

Para quem precisa de atendimento gratuito, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a principal porta de entrada da rede pública especializada. As unidades oferecem acolhimento e acompanhamento a pessoas que enfrentam sofrimento psíquico intenso ou transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

Além dos CAPS, universidades e clínicas-escola de Psicologia também oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo/Foto: Divulgação  

Distribuídos em diversos municípios baianos, os CAPS contam com equipes multiprofissionais formadas por psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outros profissionais capacitados para prestar assistência e promover a reinserção social dos pacientes. Pensando nisso, o Aratu On reuniu informações sobre onde buscar atendimento psicológico gratuito no estado. 

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