Por que Luiz Caldas não canta mais 'Fricote', música que marcou axé music
Considerada música que deu início ao movimento da axé music, Fricote saiu do repertório de Luiz Caldas há alguns anos
Por Juana Castro.
Luiz Caldas, reconhecido como um dos precursores do axé music, tem explicado nos últimos anos por que deixou de cantar “Fricote”, música lançada em 1985 e frequentemente apontada como o marco inicial do gênero. A decisão está relacionada às críticas ao conteúdo da letra, considerada por parte do público e de pesquisadores como portadora de elementos racistas e machistas.
A canção ganhou projeção nacional com versos como “Nega do cabelo duro / Que não gosta de pentear / Quando passa na baixa do tubo / O negão começa a gritar”, trechos que passaram a ser questionados por associarem características físicas a estereótipos raciais. A expressão “cabelo duro”, em especial, é reconhecida como ofensiva quando usada para se referir a pessoas negras.

Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, exibida em 2025, Luiz Caldas foi questionado pela apresentadora Maju Coutinho sobre a mudança de percepção em relação à música ao longo de mais de 40 anos de carreira. “Hoje é considerada uma letra que tem tons de machismo e racismo. Você disse que nem escreveria mais uma letra dessas. Como foi o processo de percepção dessa letra?”, perguntou a jornalista.
Na resposta, o cantor afirmou que a obra deve ser compreendida dentro do contexto histórico em que foi criada, mas que não vê sentido em mantê-la no repertório atual. “O artista, de certa forma, ele conta o que vê, é um cronista. A música Fricote, quando eu compus, foi essa canção que levou o axé music. Eu acho o seguinte: você tem que viver a época em que você está vivendo, respeitar as regras. Acho desnecessário cantá-la, já que tenho tantos outros sucessos”, disse.
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O posicionamento já havia sido manifestado pelo artista em 2021, em entrevista ao jornal O Globo, quando reforçou que a composição não se encaixa mais no contexto atual. “Existem várias músicas que não cabem hoje. Se quer viver bem em uma sociedade é preciso respeitar as regras. Admiro essa geração que está colocando muitas coisas no eixo”, afirmou.
Na mesma entrevista, Luiz Caldas destacou que a decisão também foi possível por não depender exclusivamente da canção para sustentar a carreira. “Se eu tivesse só Fricote de sucesso, como muitos artistas, teria que cantá-la para me sustentar e sustentar a família. Mas tenho muitos [sucessos]”, declarou.
Apesar de não apresentá-la mais nos shows, o cantor reconhece a importância histórica da música para a consolidação do axé music. “Acredito que Fricote cumpriu o papel dela, de ser o elo com essa corrente toda que chama axé music e que não é bem um estilo musical como samba ou rock, mas uma forma de fazer música”, concluiu.
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Carnaval de Luiz Caldas
Criador do movimento que transformou a música baiana e reconhecido como pai da axé music, Luiz Caldas realiza em 2026 mais um Carnaval à frente de sua tradicional pipoca, reunindo foliões de diferentes gerações nos dois principais circuitos da festa em Salvador.
O cantor, compositor e multi-instrumentista inicia a agenda da folia momesca no dia 12 de fevereiro, durante a abertura oficial do Carnaval, no circuito Osmar, no Campo Grande. O retorno à avenida acontece na segunda-feira, 16 de fevereiro, no circuito Dodô (Barra-Ondina).
Figura central da música brasileira contemporânea, Luiz Caldas mantém uma relação histórica com o Carnaval e com os trios elétricos. No repertório apresentado ao público, o artista reúne sucessos que marcaram sua trajetória e se consolidaram como hinos da folia, como “Haja Amor”, “Magia”, “Ajayô”, “Tieta”, “Beijo” e “Axé pra Lua”, em um setlist voltado à celebração e à memória afetiva do público.
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Além das apresentações em Salvador, Luiz Caldas também leva o Carnaval para fora da Bahia. No dia 15 de fevereiro, domingo, ele se apresenta em Barra dos Coqueiros, em Sergipe. Já no dia 17 de fevereiro, terça-feira, encerra a agenda da folia de 2026 como atração do Camarote Planeta Band.
Aos 63 anos e com mais de cinco décadas dedicadas à música, o artista segue com forte conexão com a rua e com o público. Luiz Caldas subiu pela primeira vez em um trio elétrico aos 16 anos, episódio que marcou sua trajetória no Carnaval. Antes disso, já havia iniciado a carreira musical aos sete anos, tocando em bailes, experiência que ajudou a moldar sua versatilidade e identidade artística.
Luiz Caldas no Carnaval 2026 – Trio Pipoca
Data: 12 de fevereiro (quinta-feira)
Local: Circuito Campo Grande – Salvador (BA)
Data: 16 de fevereiro (segunda-feira)
Local: Circuito Barra-Ondina – Salvador (BA)
Data: 15 de fevereiro (domingo)
Local: Barra dos Coqueiros – Sergipe
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