A corrupção que já não causa indignação
Quando denúncias deixam de provocar reflexão e os fatos passam a ser julgados conforme o lado político atingido, a democracia enfrenta um problema que vai além dos casos de corrupção: a perda da capacidade de rever convicções.
Qual é a corrupção mais perigosa para uma democracia?
Não é apenas aquela que desvia dinheiro público ou envolve pessoas poderosas. É também a corrupção normalizada, aquela que já não provoca indignação, não muda consciências e passa a ser tolerada quando beneficia o nosso lado.
Pesquisa Quaest divulgada recentemente mostrou que 62% dos eleitores afirmam que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal não influencia seu voto. Outros 26% dizem que ela apenas reforça a escolha já feita. Somente 7% admitem que podem mudar de candidato.
O Datafolha encontrou cenário semelhante ao perguntar sobre episódios envolvendo ministros do Supremo. Diante das acusações contra Alexandre de Moraes, 85% dos entrevistados disseram que não mudariam seu voto. Em relação a uma possível investigação sobre André Mendonça, foram 86%.
Esses números não provam que o brasileiro aceita a corrupção, mas revelam uma reação humana que precisamos compreender. É como o marido que descobre uma traição, mas prefere fingir que não viu. Não necessariamente porque deixou de considerar a traição errada, mas porque reconhecer a verdade significaria enfrentar a decepção, admitir que foi enganado e rever toda a confiança que depositou naquela relação.
Na política acontece algo semelhante: quanto mais o eleitor transforma um político em parte de sua própria identidade, mais difícil se torna reconhecer seus erros. Aceitar os fatos pode significar admitir: eu confiei, eu defendi, eu votei e posso ter sido enganado.
Para não enfrentar essa dor, o eleitor procura justificativas, desacredita a denúncia ou acusa quem apresentou os fatos. Quando a suspeita atinge o adversário, exige investigação, afastamento e punição, quando alcança alguém do seu grupo, prefere não enxergar.
A corrupção não tem ideologia. O dinheiro desviado não pergunta se o cidadão é de direita ou de esquerda. Ele desaparece das escolas, dos hospitais, da segurança pública, da infraestrutura, do INSS, do seu direito à aposentadoria. Atinge a todos.
Mudar de opinião diante de fatos novos não é fraqueza; é inteligência, maturidade e liberdade de consciência.
Não permita que o medo da decepção o transforme em defensor de quem pode ter traído a sua confiança. Antes de defender um político, defenda a verdade, o seu dinheiro, a Constituição e o futuro do Brasil.
A maior ameaça a um país não é somente a corrupção que ocupa as manchetes; é a anestesia moral de uma sociedade que prefere fingir que não viu.
Faça esta reflexão. Afinal, o futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa agora.
Siga a gente no Insta, Facebook, Bluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).