Cidadania

A corrupção que já não causa indignação

Paulo Cavalcanti
Colunista On: Paulo CavalcantiEmpresário, advogado e presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia
A corrupção que já não causa indignação

Quando denúncias deixam de provocar reflexão e os fatos passam a ser julgados conforme o lado político atingido, a democracia enfrenta um problema que vai além dos casos de corrupção: a perda da capacidade de rever convicções.

Qual é a corrupção mais perigosa para uma democracia?

Não é apenas aquela que desvia dinheiro público ou envolve pessoas poderosas. É também a corrupção normalizada, aquela que já não provoca indignação, não muda consciências e passa a ser tolerada quando beneficia o nosso lado.

Pesquisa Quaest divulgada recentemente mostrou que 62% dos eleitores afirmam que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal não influencia seu voto. Outros 26% dizem que ela apenas reforça a escolha já feita. Somente 7% admitem que podem mudar de candidato.

O Datafolha encontrou cenário semelhante ao perguntar sobre episódios envolvendo ministros do Supremo. Diante das acusações contra Alexandre de Moraes, 85% dos entrevistados disseram que não mudariam seu voto. Em relação a uma possível investigação sobre André Mendonça, foram 86%.

Esses números não provam que o brasileiro aceita a corrupção, mas revelam uma reação humana que precisamos compreender. É como o marido que descobre uma traição, mas prefere fingir que não viu. Não necessariamente porque deixou de considerar a traição errada, mas porque reconhecer a verdade significaria enfrentar a decepção, admitir que foi enganado e rever toda a confiança que depositou naquela relação.

Na política acontece algo semelhante: quanto mais o eleitor transforma um político em parte de sua própria identidade, mais difícil se torna reconhecer seus erros. Aceitar os fatos pode significar admitir: eu confiei, eu defendi, eu votei e posso ter sido enganado.

Para não enfrentar essa dor, o eleitor procura justificativas, desacredita a denúncia ou acusa quem apresentou os fatos. Quando a suspeita atinge o adversário, exige investigação, afastamento e punição, quando alcança alguém do seu grupo, prefere não enxergar.

A corrupção não tem ideologia. O dinheiro desviado não pergunta se o cidadão é de direita ou de esquerda. Ele desaparece das escolas, dos hospitais, da segurança pública, da infraestrutura, do INSS, do seu direito à aposentadoria. Atinge a todos.

Mudar de opinião diante de fatos novos não é fraqueza; é inteligência, maturidade e liberdade de consciência.

Não permita que o medo da decepção o transforme em defensor de quem pode ter traído a sua confiança. Antes de defender um político, defenda a verdade, o seu dinheiro, a Constituição e o futuro do Brasil.

A maior ameaça a um país não é somente a corrupção que ocupa as manchetes; é a anestesia moral de uma sociedade que prefere fingir que não viu.

Faça esta reflexão. Afinal, o futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa agora.

Siga a gente no InstaFacebookBluesky e X. Envie denúncia ou sugestão de pauta para (71) 99940 – 7440 (WhatsApp).

Comentários

Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Aratu On.

Paulo Cavalcanti

Paulo Cavalcanti

Empresário, advogado e presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia

Instagram: @paulosergiocavalcanti

Ver mais > >

Relacionadas

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.