Da areia da praia ao delivery: a estratégia que transformou um negócio de verão em renda permanente
Igor Gonçalves encontrou no empreendedorismo uma saída para ampliar a renda e a expansão das plataformas de delivery foi ideal para essa transformação.
Por Taís Rocha.
Foi num domingo ensolarado, com os pés na areia da Praia da Barra, em Salvador, que Igor Gonçalves de Jesus, de 23 anos, tomou uma decisão que mudaria sua vida. Funcionário de uma fábrica de sorvetes durante a semana, ele observou os ambulantes que circulavam pela orla e enxergou uma oportunidade: montar um carrinho de açaí. Batizou o negócio de Açaí Onda Roxa, com o bordão "essencial como o mar no verão", e passou a trabalhar seis dias por semana, cinco na fábrica e os fins de semana na praia.
Antes de montar o carrinho, Igor trabalhava apenas como CLT. O salário pagava as contas, mas não era o suficiente para realizar planos maiores. Assim, em janeiro de 2026, nasceu o Açaí Onda Roxa, com um bordão simples e certeiro, "essencial como o mar no verão". Assim, a praia, que para muitos é só lazer, para ele se tornou sala de aula. Ao observar os ambulantes que iam e vinham com caixas de isopor e mercadorias diversas, ele sentiu o desejo de criar um produto que fosse não apenas uma mercadoria, mas que tivesse uma identidade, com nome marcante e diferencial de qualidade.
Aos sábados e domingos, enquanto os banhistas chegavam, Igor estava lá, de carrinho armado, servindo o produto que logo conquistou clientela fiel. O que parecia apenas um bico de fim de semana foi se tornando, aos poucos, um negócio estruturado e com ambições muito maiores.

Da areia da praia para os aplicativos
A euforia do verão, porém, trouxe junto uma preocupação. Com a chegada do inverno, a praia esvazia. Para Igor, isso significava meses sem a renda extra que havia se acostumado a contar. "A correria é intensa, mas compensa muito ter uma renda adicional que me ajude a projetar mais possibilidades de melhoria pra minha vida e da minha família", diz ele.
Foi então que a chegada do 99Food a Salvador, plataforma de delivery que estreou no Nordeste escolhendo a Bahia como porta de entrada, com mais de mil restaurantes cadastrados e 20 mil entregadores parceiros desde o lançamento, abriu uma janela que Igor não hesitou em pular. Ele adaptou um espaço frente a casa dos pais, e iniciou as vendas do Açaí Onda Roxa para vizinhos e também no delivery. Logo depois, ampliou a presença e se cadastrou também no iFood.
Para entrar nas plataformas, Igor precisou abrir um CNPJ. Foi aí que descobriu que o processo era mais simples do que imaginava. Desde março de 2026, o Onda Roxa opera em três frentes simultâneas: o carrinho na Barra nos fins de semana durante o dia, o iFood e o 99Food durante a semana no período da noite.

Cuidado e Qualidade
Trabalhar com açaí exige cuidado. O produto é sensível ao calor, não pode perder consistência, e cada detalhe importa na hora da entrega. Igor aprendeu isso na prática e transformou o desafio em diferencial.
"Trabalhar com açaí na praia e também no delivery é muito interessante porque, apesar de ser um produto delicado que traz muitos desafios, também nos traz conquistas e experiências especiais, inclusive, acabamos fazendo amizade com alguns clientes. Vários elogiam nosso açaí, e são tantas combinações que os clientes pedem que a gente fica pensando em novas possibilidades o tempo todo", conta. No cardápio, opções que vão do creme de avelã e cookies cremoso ao morango, banana e outras frutas. No delivery, há ainda cremes de nutella, tapioca e ninho, além de açaís batidos com maracujá e outros sabores.
Na praia, o cardápio é mais enxuto, e há uma razão para isso. "O calor é maior e a refrigeração é feita com placas de gelo em gel, então não levamos cremes nem açaís batidos com outros sabores além do tradicional pois a consistência se perde mais rápido, e não queremos perder a qualidade", explica Igor. "Esse é um dos nossos diferenciais no delivery: os cremes."

Salvador, capital do empreendedorismo
A história de Igor não é isolada. Salvador registrou 64 mil novas empresas abertas no último ano, liderando o Nordeste em novos negócios. O setor de serviços responde por 52% desse movimento, e a alimentação segue como uma das apostas mais frequentes entre quem decide empreender.
No iFood, o açaí já é o quarto tipo de pedido mais solicitado na Bahia, com 2,1 milhões de pedidos registrados, atrás apenas de lanches, pizza e comida brasileira. A plataforma gerou mais de 34 mil postos de trabalho diretos e indiretos no estado, segundo pesquisa da Fipe publicada em 2024, e a Bahia registrou alta de mais de 26% no total de pedidos no último ano em comparação ao anterior. Salvador está entre as três cidades do Nordeste com maior volume de pedidos.
Planejar para crescer
Entrar em uma plataforma de delivery, no entanto, exige mais do que um bom produto. Fabrício Barreto, Gestor Territorial do Sebrae, acompanha de perto esse movimento e alerta para um ponto fundamental: antes de colocar o produto no mercado, é preciso testar, planejar os custos e entender as regras do jogo.
"É importante ter a noção de custo do produto e custo de operação perante os aplicativos, para que você consiga ser competitivo. Porque é melhor o seu produto estar rodando, estar na vitrine de um aplicativo, do que estar lá no freezer, parado", diz Barreto.
Para Fabrício Barreto, o crescimento do delivery no estado acompanha uma transformação que vem de um tempo atrás. "A gente acompanha esse crescimento da modalidade delivery principalmente no período da pandemia, quando muitas pessoas estavam sem oportunidades e começaram a produzir em casa. A única forma que tinham para que o produto chegasse ao cliente era o delivery, isso potencializou bastante", afirma.
Segundo ele, o fenômeno foi além da necessidade momentânea. Restaurantes já estabelecidos que nunca haviam investido no canal passaram a adotá-lo por sobrevivência, e o hábito ficou. "As plataformas vêm desenvolvendo oportunidades para esses pequenos empresários. E o que a gente vê é que cada vez mais as empresas vão precisar se qualificar, ter conhecimento e tecnologia para aproveitar essas oportunidades", diz Barreto.
E para quem está começando, Barreto tem um conselho que vai além dos números. "Trabalhe bem o produto antes de colocar no mercado. Teste, peça opinião de amigos e parentes, e avalie o que você pode fazer melhor. O paladar tem que ser marcante, quando você tem um bom produto que marca, o cliente lembra. E procure sempre entregar mais do que o cliente está comprando, seja no atendimento, seja numa mensagem. O que é personalizado tem um valor muito grande."
De olho no futuro
Com menos de seis meses de delivery, Igor já pensa nos próximos passos. Uma loja física está no horizonte, mas sem abrir mão do que construiu. "Penso em expandir para uma loja física futuramente, mas pretendo continuar com os carrinhos na praia e o delivery, sempre pensando em formas de inovar ainda mais e trazer melhorias para os meus clientes", diz.

O verão, para ele, tem um significado que vai além do calor. "O verão é uma das melhores épocas para se trabalhar. A economia se movimenta muito com a chegada de turistas, com as festas na cidade. É o coração das estações."
Do domingo na praia que gerou uma ideia a um negócio com CNPJ, carrinho, dois aplicativos e planos de loja física, Igor Gonçalves levou menos de um ano para transformar uma observação simples em uma nova realidade. E o inverno, que antes era motivo de preocupação, agora é só mais uma estação.
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