Impacto da guerra no Irã: Bahia pode ter combustíveis mais caros
Guerra no Oriente Médio entra no quinto dia e já projeta impactos em setores vulneráveis da Bahia como câmbio e energia
O acirramento das tensões geopolíticas entre a aliança Estados Unidos-Israel e o Irã ultrapassa as fronteiras diplomáticas e já projeta sombras sobre o futuro econômico do Brasil. Segundo o economista Edisio Freire, os reflexos da crise começam a atingir setores estratégicos da economia nacional, com impacto direto nas metrópoles mais populosas.
A Bahia, quarto estado mais populoso do país, deve sentir os efeitos já nas próximas safras agrícolas e no custo de vida imediato. Do preço do gás de cozinha ao abastecimento dos veículos, o saldo da guerra no Oriente Médio começa a ser contabilizado pelo consumidor baiano.
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O estopim da crise
A atenção se voltou para a Bahia, mesmo distante do epicentro da crise diplomática, após os ataques realizados no último sábado (28) por Estados Unidos e Israel contra alvos militares e nucleares no Irã.
O bombardeio resultou na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. A ofensiva foi justificada pelo temor das potências ocidentais de que o Irã esteja próximo de desenvolver armas nucleares através do enriquecimento de urânio.
Nesta quinta-feira (5), quinto dia de hostilidades, não há previsão de cessar-fogo. Pelo contrário. O conflito se expandiu para o Líbano, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, elevando o risco de uma guerra regional de grandes proporções.

Impacto no mercado
O mercado internacional reagiu imediatamente. Na última segunda-feira (2), o barril do petróleo tipo Brent subiu 7,6%, sendo negociado próximo a US$ 79 em Londres. No Brasil, as ações da Petrobras registraram alta de 3,90% na B3, cotadas a R$ 44,39. A instabilidade ameaça o Estreito de Ormuz, por onde circula 20% do petróleo mundial.
Para Edisio Freire, os setores de energia e câmbio são os mais vulneráveis. Na Bahia, o impacto é potencializado por um fator logístico e administrativo: a privatização do refino.
Diferente de estados onde a Petrobras domina e consegue amortecer variações bruscas, a Bahia depende da Refinaria de Mataripe (administrada pela Acelen).

A empresa de energia segue estritamente a paridade de preços internacionais. "A Bahia pode experimentar repasses de preços ainda maiores e mais rápidos do que outros estados, impactando o custo de vida de modo geral", explica o economista.
Diesel, gasolina e gás de cozinha (GLP) devem liderar as altas. Até o etanol, embora não derive do petróleo, deve sofrer pressão de preço por ser um substituto direto da gasolina.
Agronegócio e indústria sob pressão
A Bahia é uma potência agrícola, o estado é o segundo maior produtorr de algodão e líder em soja, milho e café. Contudo, essa força depende de insumos importados. "O agronegócio será extremamente afetado pela variação cambial. Fertilizantes, defensivos e maquinários são indexados ao dólar", pontua Freire.
Freire menciona que outros setores que podem estar no radar de risco:
Construção Civil: insumos como cobre e alumínio possuem preços globais.
Tecnologia: a crescente indústria de montadoras e eletrônicos no estado depende de componentes importados que ficam mais caros com a alta da moeda americana.
O "Nó" dos juros
A guerra atua como um gatilho inflacionário global, o que deve travar o ciclo de queda dos juros no Brasil. Atualmente, a taxa Selic permanece em patamares elevados (15%), frustrando as expectativas do mercado que apostava em um corte de 0,5%.
Embora juros altos atraiam investidores financeiros, Freire alerta para o perigo de uma "estagnação econômica". Com a Selic elevada, o empresário brasileiro prefere aplicar no mercado financeiro a investir na produção real.
"A taxa de juros não pode ser tão alta que impeça o desenvolvimento, nem tão baixa que desincentive a entrada de capital. No momento, ela serve para segurar a inflação, mas acaba castigando setores como o agronegócio", conclui o economista.

Contexto do conflito
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no sábado (18), em meio às negociações entre Irã e Estados Unidos para um novo acordo nuclear. O bombardeio deixou mais de 200 mortos.
A limitação do programa nuclear iraniano é uma prioridade histórica da política externa de Washington. Em 2015, o então presidente Barack Obama firmou um acordo que restringia as atividades nucleares do país e permitia inspeções internacionais nas instalações.
O pacto foi abandonado em 2018 por Donald Trump, que considerou o acordo favorável demais ao Irã. Após a saída dos EUA, Teerã ampliou o nível de enriquecimento de urânio, material que pode ser utilizado na produção de armas nucleares.
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