Educador avalia efeitos da IA na formação crítica dos estudantes
Para professor da UFBA, uso das ferramentas de IA pode ampliar o aprendizado, mas também reduzir a formação crítica quando substitui a reflexão do estudante
Por Dinaldo dos Santos.
No Dia do Estudante, celebrado nesta terça-feira, 11 de agosto, a relação entre os jovens e as novas tecnologias ganha um componente cada vez mais presente nas salas de aula: a Inteligência Artificial (IA).
Ferramentas capazes de produzir textos, resumir conteúdos, responder perguntas e auxiliar em pesquisas já fazem parte da rotina de muitos estudantes, mas, em trevista ao Aratu On, o professor Nelson Pretto, da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), disse que os efeitos dessa utilização dependem de como a tecnologia é incorporada ao processo de formação.

Pioneiro no Brasil nos estudos sobre educação e cultura digital e coordenador do grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias, Pretto avalia que a discussão não deve se limitar a classificar a Inteligência Artificial como benéfica ou prejudicial. Para ele, é necessário considerar qual é o objetivo da educação e o papel que se espera que o estudante desempenhe diante do conhecimento.
“Não existe uma resposta simples para um problema complexo”, resume o professor, ao defender que o uso das ferramentas de IA precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo de formação.
IA pode ajuda no aprendizado, mas não substituir reflexão
Na avaliação de Pretto, um dos principais riscos está no uso da Inteligência Artificial como substituta do processo de elaboração do próprio estudante. Quando o aluno simplesmente solicita uma resposta a um sistema, copia o resultado e o apresenta como seu, o problema vai além da autoria do trabalho.
O prejuízo, nesse caso, estaria na perda de uma etapa fundamental da formação: a oportunidade de pesquisar, confrontar informações, desenvolver argumentos e construir uma reflexão própria.
Por outro lado, a tecnologia pode ser utilizada como instrumento de aprendizagem. O estudante pode questionar a ferramenta, solicitar informações adicionais, confrontar respostas, revisar o que foi produzido e utilizar o resultado como ponto de partida para desenvolver suas próprias ideias.
“Se eu pego e dialogo com esse agente de inteligência artificial, pedindo mais informações, analisando estas informações, escrevendo e reescrevendo as minhas reflexões, eu estou fazendo com esse agente aquilo que nós faríamos no chamado trabalho em grupo”, explica.
Nesse sentido, a IA pode assumir uma função semelhante à de uma ferramenta de apoio à pesquisa e à construção do conhecimento, desde que não elimine a participação ativa do estudante. A diferença está menos na ferramenta utilizada e mais na maneira como ela é empregada durante o processo de aprendizagem.

Formação de professores entra no debate
Para o professor da UFBA, o avanço acelerado das tecnologias também impõe desafios aos educadores. A formação docente, segundo ele, precisa acompanhar as transformações para que professores tenham condições de compreender não apenas como utilizar essas ferramentas, mas também como avaliar criticamente os conteúdos produzidos por elas.
Pretto defende que essa preparação deve envolver diferentes áreas do conhecimento, já que a Inteligência Artificial atravessa o cotidiano escolar de maneira ampla. Ao mesmo tempo, considera necessário compreender que as tecnologias não são neutras e que os sistemas são desenvolvidos por empresas e organizações com interesses próprios.
Por isso, a capacidade de analisar informações e questionar respostas continua sendo fundamental, inclusive diante de conteúdos produzidos por ferramentas digitais. Para o professor, esse cenário reforça a importância de uma educação voltada à formação crítica, em vez de simplesmente preparar estudantes para executar tarefas de maneira mais rápida.
“A velocidade de desenvolvimento dessas tecnologias é muito grande”, afirma Pretto, destacando que até mesmo professores e pesquisadores precisam acompanhar continuamente as mudanças provocadas pela expansão da Inteligência Artificial.
A discussão, portanto, não se resume a permitir ou proibir o uso da IA pelos estudantes. Envolve repensar práticas de ensino, preparar professores e estabelecer critérios para que as ferramentas sejam incorporadas à educação sem retirar do aluno o protagonismo sobre sua própria formação.
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