Única mulher na turma: fotos de Nise da Silveira na Ufba são restauradas com IA

Neste domingo (5), um perfil no X recuperou fotos antigas da turma de Nise na Faculdade de Medicina da Ufba com a ajuda de Inteligência Artificial (IA)

Por Bruna Castelo Branco.

Fundada em 18 de fevereiro de 1808 por Dom João VI, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) já formou nomes que transformaram a saúde no Brasil, como Juliano Moreira, Martagão Gesteira, Manuel Vitorino, Afrânio Peixoto, Oscar Freire, Pirajá da Silva, e por aí vai. Mas, entre eles, há ela: Nise da Silveira, única mulher a se formar em uma turma de 157 alunos há 100 anos, em 1926, e uma das primeiras a se formar em Medicina no país.

Neste domingo (5), o perfil no X (@Deligtsubs) recuperou fotos antigas da turma de Nise na Ufba com a ajuda de Inteligência Artificial (IA), e a perfeição de detalhes das imagens, assim como a história da médica, chamou a atenção nas redes sociais, atingindo quase 100 mil visualizações.

"Ela revolucionou no sentido pleno, antes de Nise era lobotomia, eletrochoque, isolamento. As grandes mulheres que tivemos são pouco conhecidas do público", escreveu um usuário da rede. "E ela também foi muito importante para o voto feminino no Brasil", disse outra.

Veja, abaixo, as fotografias editadas e as originais:

Neste domingo (5), um perfil no X recuperou fotos antigas da turma de Nise na Faculdade de Medicina da Ufba com a ajuda de Inteligência Artificial (IA). | Foto: @Deligtsubs/X

Foto: @Deligtsubs/X

Nise da Silveira foi a única mulher a se formar em uma turma de 157 alunos há 100 anos. | Foto: @Deligtsubs/X

Foto: @Deligtsubs/X

Quem foi Nise da Silveira?

A médica psiquiatra Nise da Silveira teve sua trajetória e pensamento registrados em livros, filmes, peças de teatro e exposições de arte. Décadas após sua morte, o trabalho da alagoana continua influenciando debates e práticas no campo da saúde mental. Ela se tornou conhecida por defender a introdução do afeto e da arte no tratamento de pessoas com transtornos mentais, em oposição a práticas agressivas predominantes na psiquiatria de sua época.

Nascida em Maceió, em 1905, Nise era filha de um matemático e de uma pianista. Desde cedo conviveu com universos distintos entre a lógica e a sensibilidade. Estudou na Faculdade de Medicina da Ufba, onde foi a única mulher a se formar em uma turma de 157 alunos — um feito raro para o período. Ainda no início da carreira, ampliou seu olhar para além da prática clínica, considerando também os contextos sociais e culturais que atravessam a saúde mental.

Nascida em Maceió, em 1905, Nise era filha de um matemático e de uma pianista. | Foto: Arquivo Público

Na década de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade central em sua formação intelectual e profissional. Nesse período, aproximou-se de movimentos políticos e chegou a integrar o Partido Comunista Brasileiro. Em 1936, foi presa sob acusação de envolvimento com atividades consideradas subversivas durante o Estado Novo.

O episódio acabou se tornando um ponto de inflexão em sua trajetória. Durante o período em que esteve encarcerada, teve contato com o escritor Graciliano Ramos, que registrou o encontro no livro Memórias do Cárcere:

“Numa passada larga, atingi o vão da janela: agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito por que me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o pátio, o vestíbulo, a escada já vista no dia anterior. No patamar, abaixo de meu observatório, uma cortina de lona ocultava a Praça Vermelha. Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: – Nise da Silveira”.

Em 1936, foi presa sob acusação de envolvimento com atividades consideradas subversivas durante o Estado Novo. | Foto: Arquivo Público

Após deixar a prisão, retomou sua atuação na psiquiatria. Em 1944, passou a trabalhar no então Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro — hoje Instituto Municipal Nise da Silveira. No local, recusou-se a adotar práticas como eletrochoque, lobotomia e choque insulínico, comuns na época.

Em contraposição, criou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, onde introduziu atividades expressivas como pintura, modelagem, música e convivência com animais. Inspirada pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung, Nise também contribuiu para difundir esse pensamento no Brasil. Nesse processo, passou a se referir aos pacientes como “clientes”, buscando romper com a lógica desumanizante do tratamento psiquiátrico.

Em 1952, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. | Foto: Arquivo Público

As produções artísticas desses clientes ganharam visibilidade. Em 1949, a exposição Nove Artistas de Engenho de Dentro apresentou ao público parte do trabalho desenvolvido. No ano seguinte, a mostra Arte Psicopatológica (1950) foi realizada em Paris, ampliando o alcance internacional da abordagem defendida por Nise.

Em 1952, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. A instituição reúne centenas de milhares de obras produzidas por pacientes e se tornou referência mundial no estudo das relações entre arte e saúde mental.

A atuação da médica seguiu inovadora. Em 1956, criou a Casa das Palmeiras, espaço voltado à reabilitação de egressos de hospitais psiquiátricos, com foco na reintegração social e na continuidade das práticas expressivas.

A atuação da médica seguiu inovadora. | Foto: Arquivo Público

De Nise da Silveira também ficou registrada a frase: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade”.

Nise da Silveira morreu em 1999, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de uma pneumonia. O legado da psiquiatra permanece como referência na construção de práticas mais humanas no tratamento da saúde mental.

Nise da Silveira morreu em 1999, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de uma pneumonia. | Foto: Arquivo Público

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