Justiça suspende investigação contra mulher presa por ataque a terreiro de Salvador
Decisão do TJ-BA determina interrupção temporária do inquérito para realização de incidente de sanidade mental da suspeita de racismo religioso
Por Victor Hernandes.
O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) determinou a suspensão temporária do inquérito policial que investiga a mulher presa por suspeita de racismo religioso após um ataque a um terreiro em Salvador. A decisão, acessada pelo AratuON nesta terça-feira (28), estabelece a interrupção da investigação até a conclusão do incidente de sanidade mental da investigada.

A suspeita, identificada como Soraia Mascarenhas Neves, foi presa no último dia 6 de julho após um ataque a um terreiro localizado no bairro de Cajazeiras IX, em Salvador.
Segundo a decisão judicial, a suspensão do processo tem como objetivo permitir a realização de exames para avaliar a saúde mental da investigada. A medida foi adotada após a defesa alegar que Soraia apresenta condições psiquiátricas que poderiam comprometer sua capacidade de responder pelos atos.
Defesa pediu prisão domiciliar
No dia seguinte à prisão, a defesa solicitou a conversão da prisão preventiva em prisão domiciliar, argumentando que a investigada possuía "condições psiquiátricas" que justificariam a substituição da medida cautelar.
O pedido, no entanto, foi negado pelo juiz Horácio Moraes Pinheiro, durante a audiência de custódia. Na ocasião, o magistrado manteve a prisão preventiva e afirmou que não foram constatadas irregularidades na custódia.
Investigação ficará suspensa
Na decisão mais recente, assinada pelo juiz Marcelo de Almeida Costa, o TJ-BA determinou que o processo permaneça suspenso até a conclusão e o julgamento do laudo pericial sobre a sanidade mental da investigada.
Somente após a análise definitiva do exame será decidido se a investigação terá prosseguimento e quais medidas processuais deverão ser adotadas.
Entenda o caso
Soraia Mascarenhas Neves, de 45 anos, foi apontada pela polícia por participar de um ataque a terreiro de candomblé localizado no bairro de Cajazeiras XI, em Salvador.
A prisão é resultado das investigações sobre o ataque a um terreiro localizado no bairro de Cajazeiras XI, ocorrido no dia 20 de janeiro de 2026. Na ocasião, a fachada e o portão de entrada do espaço religioso foram pichados com inscrições de cunho discriminatório e ofensivo.
De acordo com a Polícia Civil, a identificação da suspeita foi possível após a análise de imagens de videomonitoramento e da coleta de provas, que embasaram o pedido das medidas judiciais.
Durante o cumprimento do mandado de busca, foram apreendidos dois aparelhos celulares, agendas e um notebook. Os materiais passarão por análise e devem contribuir para o aprofundamento das investigações. A suspeita foi submetida aos exames legais e permanece à disposição do Poder Judiciário.
O caso é investigado pela Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin), vinculada ao Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV). As investigações continuam para o completo esclarecimento dos fatos.
Os membros do templo religioso denunciaram o crime ocorrido em janeiro deste ano após ter o muro de entrada pichado. De acordo com o terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, as paredes do espaço sagrado foram pichadas com as palavras “Assassinos” e “Jesus”.
Em nota, a instituição classificou o ato como racismo religioso e afirmou que a ação representa um ataque à liberdade de crença e ao direito constitucional ao livre exercício religioso.
“Trata-se de um crime motivado por ódio religioso, que reforça estigmas, incita a violência simbólica e perpetua o racismo estrutural historicamente imposto aos nossos povos”, informou.
A comunidade religiosa cobrou a identificação e punição dos responsáveis, além de medidas para garantir a segurança do local.
“Nossa fé resiste. Nosso sagrado não será silenciado. Buscaremos por justiça!”, finalizou.
Em nota, a Polícia Civil informou que a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) investiga a ocorrência pelos crimes de dano e intolerância religiosa.
Conforme a polícia, além das pichações de cunho religioso, um equipamento eletrônico do templo também foi danificado. Até o momento, ninguém foi preso.
Outros casos de ataque a terreiros em Salvador
Em maio do ano passado, a Casa de Oxumarê, um dos terreiros mais antigos e significativos do candomblé na Bahia, foi alvo de vandalismo na Avenida Vasco da Gama, em Salvador.
Um membro da Torcida Organizada Bamor (TOB) foi flagrado pichando o muro do terreiro com a sigla da torcida, horas antes do clássico entre Bahia e Vitória, que terminou com vitória do Tricolor na Arena Fonte Nova.
Em vídeo que circula nas redes sociais, o suspeito aparece pichando o muro do terreiro com a sigla TOB. Nas redes sociais, a Casa de Oxumarê pediu por respeito e ética.
A Casa de Oxumarê é um dos terreiros mais antigos do país. Foi tombada como patrimônio histórico e cultural do Brasil em 2013 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

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