Uso recreativo de Tadalafila cresce entre jovens e preocupa especialistas

O uso recreativo da Tadalafila, medicamento indicado para tratar disfunção erétil, vem se popularizando entre jovens brasileiros

Por Bruna Castelo Branco.

Fonte: Agência Einstein

O uso recreativo da Tadalafila, medicamento indicado para tratar disfunção erétil, vem se popularizando entre jovens brasileiros, principalmente nas redes sociais. Conhecido informalmente como “tadala”, o fármaco aparece em vídeos que o apresentam como solução para melhorar o desempenho sexual ou até como suplemento pré-treino para ganhos musculares — efeitos que não têm comprovação científica.

Especialistas alertam que o consumo sem indicação médica pode representar riscos à saúde. Segundo revisão publicada em 2024 na revista acadêmica Diversitas Journal, que analisou mais de 20 estudos nacionais e internacionais das últimas duas décadas, um dos principais padrões observados entre os usuários é a aquisição do medicamento sem prescrição.

O uso recreativo da Tadalafila, medicamento indicado para tratar disfunção erétil, vem se popularizando entre jovens brasileiros. | Foto: Ilustrativa/Pexels

De acordo com o farmacêutico-bioquímico Gustavo Alves Andrade dos Santos, pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, o consumo costuma estar associado a fatores comportamentais e psicossociais. “Nada disso, porém, pode ser resolvido apenas com a medicação”, afirma o especialista.

Além da tadalafila, medicamentos como Sildenafila — conhecida comercialmente como Viagra — e Vardenafila fazem parte do grupo dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5. Esses fármacos são indicados para tratar disfunção erétil orgânica, pois promovem relaxamento dos tecidos penianos e aumento do fluxo sanguíneo, facilitando a ereção.

No entanto, em homens sem problema fisiológico, não há benefícios comprovados. “A sensação de pump (inchaço muscular momentâneo) relatada por usuários provavelmente se deve à vasodilatação periférica transitória e representa um efeito placebo”, alertou a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em nota divulgada em 2025.

Para o urologista Daniel Suslik Zylbersztejn, do Hospital Israelita Albert Einstein, o uso entre jovens tende a produzir apenas um efeito psicológico. “O que acontece é que, acreditando que seu desempenho sexual será melhor pelo uso do medicamento, o indivíduo tende a se sentir mais autoconfiante e menos pressionado”, explica. “Na prática, trata-se de uma espécie de bengala psicológica”.

Riscos à saúde

Entre os efeitos colaterais mais comuns estão rubor facial e congestão nasal, causados pela vasodilatação sistêmica. Em casos de uso abusivo, porém, podem ocorrer taquicardia, alterações da pressão arterial, desmaios, perda temporária de visão ou audição e, em situações mais graves, infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e morte súbita.

Outra complicação possível é o Priapismo, caracterizado por ereção prolongada e dolorosa sem estímulo sexual. A condição ocorre principalmente em pessoas com comprometimento hepático, que têm dificuldade em metabolizar o medicamento.

O consumo combinado com álcool também pode prejudicar o desempenho sexual. Embora a bebida cause vasodilatação, ela atua como depressora do sistema nervoso central, reduzindo a atividade dopaminérgica e dificultando a ereção.

Especialistas alertam que o consumo sem indicação médica pode representar riscos à saúde. | Foto: Ilustrativa/Pexels

Dependência psicológica

Segundo Santos, não há evidência de dependência fisiológica desses medicamentos. No entanto, pode ocorrer dependência psicológica.

“Não há evidência de dependência fisiológica desses medicamentos, eles não provocam síndrome de abstinência ou alterações bioquímicas persistentes. Entretanto, pode haver dependência psicológica”, afirma.

Especialistas apontam que fatores como ansiedade, insegurança em relações afetivas e a influência da pornografia — que cria expectativas irreais sobre o desempenho sexual — contribuem para a busca por esse tipo de substância.

“A pessoa passa a acreditar que os comprimidos vão solucionar sua ansiedade, seus distúrbios de autoimagem e até questões relacionadas à capacidade de satisfazer sua parceira”, avalia Zylbersztejn. “Mas é importante lembrar que o sexo não se resume à penetração. Muitos homens esquecem disso. A obsessão com o tamanho do pênis ou a rigidez da ereção acaba impedindo esses indivíduos de aproveitarem a situação e criarem boas conexões”.

Entre os efeitos colaterais mais comuns estão rubor facial e congestão nasal. | Foto: Ilustrativa/Pexels

Uso sem prescrição

O problema é ampliado pela facilidade de acesso ao medicamento. Estudo publicado em 2020 no International Journal of Clinical Practice, conduzido por pesquisadores da Universidade de Pequim, analisou mais de 92 mil homens jovens e constatou que, entre os quase 25 mil que utilizaram medicamentos para disfunção erétil, 51% o fizeram sem orientação profissional.

Também há preocupação com produtos irregulares vendidos na internet, como gomas ou suplementos sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que podem apresentar risco de contaminação.

“Quando esses medicamentos são colocados em embalagens que não remetem a um remédio, para atingir o público jovem, a banalização é inevitável. A única forma de enfrentar isso é por meio da orientação e da conscientização da população”, afirma o médico.

Especialistas reforçam que medicamentos como tadalafila, sildenafila e vardenafila devem ser usados apenas com prescrição médica.

“Não se utiliza um antibiótico antes de chegar a um diagnóstico, tampouco se prescreve um análogo de GLP-1 sem considerar critérios clínicos. O mesmo precisa ocorrer com a tadalafila, a sildenafila e a vardenafila. Elas só podem ser adotadas mediante indicação médica”, observa Santos.

O pesquisador acrescenta que episódios isolados de falha na ereção são comuns e não justificam o uso sistemático desses medicamentos. Caso o problema se torne frequente, a recomendação é procurar avaliação médica especializada.

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