Trabalho de homem? Mulheres crescem em profissões consideradas masculinas na Bahia

Mulheres vem ocupando cada vez mais espaço em profissões consideradas masculinas na Bahia; conheça as histórias de algumas delas

Por, Bruna Castelo Branco e Juana Castro.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, nasceu de um massacre. Em 1857, operárias de uma fábrica nos Estados Unidos realizaram uma greve para reivindicar melhores condições de trabalho e tratamento digno. O protesto, porém, foi duramente reprimido: a fábrica foi trancada e incendiada, resultando na morte de 130 mulheres carbonizadas.

De lá para cá, grupos e movimentos sociais de vários países lutaram para promover a igualdade entre homens e mulheres. No entanto, dados oficiais indicam que a discriminação de gênero persiste em vários aspectos da sociedade - inclusive, no mercado de trabalho.

Quebrar barreiras

Mas, por mais que quisesse, o mundo conseguiu parar Isabel Tinel, de 30 anos, primeira e única mulher a integrar o Grupo de Ações Rápidas no Trânsito (GART). A possibilidade de trabalhar em movimento foi um dos fatores que a levaram a escolher a carreira de agente da Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador), função que exerce há cinco anos. Com o tempo, ela decidiu avançar e passou a buscar uma vaga no Grupo de Ações Rápidas no Trânsito (GART), responsável por escoltas oficiais na capital baiana.

Isabel Tinel, de 30 anos, é a primeira e única mulher a integrar o Grupo de Ações Rápidas no Trânsito (GART). | Foto: Bruno Concha/Ascom PMS

O grupo é formado por 22 profissionais e, até janeiro deste ano, era composto exclusivamente por homens. Após quase três anos de treinamentos e cursos de capacitação, Isabel conquistou uma vaga na equipe.

"É algo novo para mim. A escolta é um grupo pequeno e bastante fechado e eu buscava participar há algum tempo. Sempre gostei de moto, mas nunca tinha tirado a habilitação. Quando completei 18 anos, minha mãe não deixou, dizia que era perigoso. Acabei adiando. Quando cheguei à Transalvador, me encantei pelo trabalho da escolta. Aqui, historicamente, só houve uma mulher motociclista e há muito tempo. As pessoas começaram a me incentivar. Quando conheci a escolta, foi o que realmente me motivou. Pensei: por que não quebrar essas barreiras e abrir espaço para mulheres nesse tipo de trabalho?".

Mas, apesar da grandiosidade da conquista, Isabel: ser mulher em uma profissão majoritariamente masculina é difícil: "Primeiro porque nós somos minoria aqui e, diante da população, acaba sendo uma dificuldade fazer com que nós sejamos respeitadas e ouvidas. O mesmo vale para a instituição: dentro de qualquer órgão, quando uma mulher alcança um cargo de poder, pensam que foi porque alguém ajudou, e não pela capacidade dela. A gente precisa impor um pouco mais de firmeza na voz para ter respeito".

Após quase três anos de treinamentos e cursos de capacitação, Isabel conquistou uma vaga na equipe. | Foto: Bruno Concha/Secom PMS

160 anos sem mulheres

Falando em pioneiras, aqui vai mais uma: a coronel Ivana Teixeira Andrade é a primeira mulher a alcançar o posto máximo da Polícia Militar da Bahia. Graduada em odontologia pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ivana construiu parte da carreira atendendo pacientes na Odontoclínica da PM. Ao longo da carreira, ela desenvolveu um trabalho voltado ao acolhimento e ao cuidado com o público infantil.

"Foi um período muito importante da minha formação, não só como dentista, mas como policial, pois receber o amor de cada criança marca muito a gente", relatou ela.

A coronel Ivana Teixeira Andrade é a primeira mulher a alcançar o posto máximo da Polícia Militar da Bahia. | Foto: SSP-BA

Sobre assumir um cargo de chefia, Ivana, que é a primeira militar da família, comentou que, muito além de uma vitória pessoal, a promoção é uma conquista coletiva: "Pessoalmente, isso representa o coroamento de uma trajetória longa, de 32 anos, dentro da corporação. Coletivamente, eu represento cada mulher dentro da corporação, e isso é de uma grande responsabilidade para mim. Sempre foi um grande orgulho assumir isso".

Em 1994, quando Ivana entrou na polícia, ela era uma das poucas mulheres na corporação - isso porquê, até 1989, só eram homens eram permitidos. Em 1990, 27 mulheres entraram no curso de sargentos e cerca de 80 no curso de soldados e, em 1992, a Academia da PM abriu a primeira turma de oficiais formada por homens e mulheres, que se formou em 1995. Ou seja: a corporação, fundada em 1825, foi exclusivamente masculina por mais de 160 anos

Mas, hoje, a coronel consegue ver um avanço. "Hoje, muitas mulheres ocupam posições estratégicas, posições de comando, comandando companhias, batalhões, e outros setores significativos".

Graduada em odontologia pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ivana construiu parte da carreira atendendo pacientes na Odontoclínica da PM. | Foto: SSP-BA

Nos trilhos

A presença feminina em funções operacionais do transporte ferroviário tem crescido no Sistema Metroviário de Salvador e Lauro de Freitas. Atividades como conduzir trens, supervisionar o tráfego, garantir a segurança e atuar na manutenção do sistema, historicamente ocupadas majoritariamente por homens, passaram a contar com cada vez mais mulheres.

É o caso da supervisora de tráfego Tacila Malvar, que começou como operadora de trem e, hoje, coordena uma equipe com mais de 25 pessoas. “Quando entrei na CCR tinha uma expectativa de crescer e me destacar, mas, ao mesmo tempo, receio de enfrentar muitos preconceitos por ser mulher em uma profissão que tem muito mais homens atuando. Os principais desafios de liderar grandes é se colocar com empatia e fazer uma liderança impulsionadora, fazendo com que outras mulheres enxerguem que também podem chegar nessa posição. Liderança não tem a ver com gênero”, contou.

A supervisora de tráfego Tacila Malvar começou como operadora de trem. | Foto: Diogo Almeida/Aratu On

“Com foco e determinação consegui superar os desafios e alcancei novas oportunidades aqui na empresa. Nessa posição tipicamente masculina, a mulher se desafia constantemente”, completa. Para ela, a qualificação profissional é um fator essencial para ampliar e consolidar a participação feminina em setores tradicionalmente masculinos.

Meninas se veem como menos inteligentes

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras apresentam média de escolaridade superior à dos homens. Apesar disso, permanecem em desvantagem no mercado de trabalho em termos salariais. A pesquisa aponta que, ocupando o mesmo cargo, as mulheres chegam a ter rendimentos 22% inferior ao dos colegas do sexo masculino.

Uma pesquisa da ONG Plan International, realizada com meninas entre 6 e 14 anos no Brasil, revelou que 40% das entrevistadas não entendem que são tão inteligentes quanto os meninos. Ao portal Gênero e Número, Viviana Santiago, gerente técnica de gênero da Plan International Brasil, explicou o motivo dessa percepção:

“As meninas começam a perceber, na reação que o mundo tem a elas, que menino é mais inteligente. Ninguém espera que uma menina seja inteligente. Tudo o que ela escuta sobre ser menina envolve beleza, doçura, singeleza e talvez por isso desde cedo ela comece a se distanciar da ideia de que ela pode ser tão inteligente quanto um menino”.

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