Sem colação, formandos de Direito da Ufba relatam prejuízos profissionais
Estudantes afirmam que falhas no sistema e indefinição sobre a data da colação de grau impedem emissão de certificado de conclusão: Sem colação, formandos de Direito da Ufba relatam prejuízos profissionais
Por João Tramm.
O que deveria ser o capítulo final de uma trajetória acadêmica marcada por resistência — pandemia, greves e mudanças curriculares — transformou-se em um cenário de incerteza e tensão para cerca de 300 formandos do curso de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Sem colação, formandos de Direito da Ufba relatam prejuízos profissionais.
A poucos dias da data prevista para a colação de grau, marcada para 2 de março de 2026, os estudantes ainda não sabem oficialmente se estão aptos a colar grau. A lista de formandos não foi divulgada e o sistema acadêmico apresenta pendências, conforme denúncia enviada exclusivamente ao Aratu On.
Ingridy Dantas, formanda e integrante da comissão de formatura resume o sentimento da turma: “O momento que era para ser de alegria está sendo de frustração extrema.”
Enquanto isso, convites enviados, familiares ansiosos e empregos aguardando apenas um documento: o certificado de conclusão de curso.

Procurada pela reportagem, a Ufba informou que a questão deve ser tratada pela Faculdade de Direito, já a unidade não enviou manifestação sobre o caso.
Sem colação, formandos de Direito da Ufba relatam prejuízos profissionais
Inicialmente prevista para 27 de fevereiro, a colação foi alterada para 2 de março. O auditório chegou a ser reservado, mas a formalização oficial não ocorreu. E, até agora, não há confirmação da lista de aptos. A solenidade privada está paga há dois anos: espaço, empresa de formatura, convites, decoração...tudo isso pronto, mas sem o mais importante: a colação na prática.
“A gente já pagou tudo. Não tem como adiar. Tem gente do interior, de outros estados, com passagem comprada. A festa vai acontecer mesmo sem saber se vai ter colação”, relata Ingridy.
O problema não é apenas simbólico. Sem a colação de grau, o estudante não recebe o certificado de conclusão — documento indispensável para inscrição na OAB, posse em concurso público ou matrícula em pós-graduação.
“Na verdade, a gente precisa da colação, principalmente quem quer colação antecipada. Não é só a lista. Quando a colação acontece, a gente tem direito ao certificado. Com ele, conseguimos tirar a OAB, fazer pós, prestar concurso. O diploma pode esperar, mas o certificado não”, explica Ingridy Dantas, formanda e integrante da comissão de formatura.
Os alunos ainda estão preocupados pelo fato de uma mobilização dos servidores da Ufba ter sido anunciada. Os técnicos administrativos da universidade anunciaram greve a partir da segunda-feira (02), data prevista para a colação.
Isso significa que, mesmo que a lista seja divulgada, qualquer erro poderá se tornar insolúvel naquele momento: “Pode ter aluno descobrindo no dia que não vai colar grau. E mesmo tendo direito, não vai conseguir resolver porque começa a greve”, alerta o formando Bruno Santana.
Há ainda o caso dos pedidos de colação antecipada — alunos que dependiam do ato formal para cumprir prazos de mestrado ou posse em emprego.
“A colação antecipada deveria ter ocorrido no início do mês passado. O NIC respondeu apenas 15 casos. Como vão analisar mais de 150 até segunda-feira?”, questionou Caian Borges, formando e integrante do Centro Acadêmico Ruy Barbosa (CARB).
Raiz do problema: mudança de sistema
O impasse começou com a migração do antigo sistema acadêmico SIAC para o SIGAA, implementada durante o semestre 2025.2. A mudança impactou toda a universidade, mas, no Direito, o efeito principal decorre da existência de duas grades curriculares conviverem mutuamente. Segundo os estudantes, o novo sistema não estava preparado para lidar com essa dualidade.
“Quem entrou antes de 2023 ficou com a grade errada no sistema. Para o SIGAA reconhecer o aluno como formando, ele precisava ter 85% do curso conforme a nova grade. Só que isso incluía disciplinas que nunca foram ofertadas, explica Caian.
Uma delas, segundo ele, é Direito e Relações Raciais (GDIR0005). “Como o sistema exige algo que nunca foi oferecido? Isso trava a integralização e impede o aluno de ser reconhecido como formando”, indagou Caian.
Além disso, há inconsistências envolvendo: Antropologia I (FCH124); Direito das Relações de Consumo (DIR061); Componente de Homologação de Extensão Curricular (GDIR0013); Horas complementares; Pendências relacionadas ao ENADE.
Busca de diálogo com a faculdade
Antes da transição, questões como aproveitamento de disciplina e integralização curricular eram resolvidas pela própria faculdade. Com o novo modelo, as decisões passaram a ser centralizadas na Superintendência de Administração Acadêmica (SUPAC).
Bruno Santana, formando e integrante do CARB, afirma que isso engessou o sistema: “Pequenos problemas que a faculdade resolvia passaram a depender da reitoria. No final do ano passado, houve um problema político interno, chefias deixaram cargos e os processos ficaram parados. Tudo foi centralizado e travou.”
Ele destaca o impacto direto na vida dos colegas: “Hoje temos quase 300 formandos. Muitos já passaram na OAB, como é o meu caso. Outros passaram em concurso ou estão com emprego praticamente garantido. Mas você só pode se intitular advogado depois da carteirinha da OAB. Sem certificado, não dá para solicitar.”
Segundo ele, o sistema que tradicionalmente “fechava” quando o aluno estava apto a formar permanece aberto, indicando pendências: “Tem colega que já cursou disciplina e ela continua aparecendo como devedora. Hora complementar aparece pendente. ENADE aparece pendente. A matemática não fecha.”
O Centro Acadêmico Ruy Barbosa já havia enviado ofícios à administração central desde agosto e setembro de 2025. Um deles solicitava flexibilização de pré-requisitos diante da excepcionalidade do novo sistema.

Segundo integrantes do Centro Acadêmico Ruy Barbosa (CARB) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), a resposta recebida à época foi considerada negativa e insuficiente para solucionar as demandas apresentadas.
Após o retorno institucional, representantes estudantis divulgaram vídeo nas redes sociais do CARB e do DCE denunciando a situação e repudiando a devolutiva. Ainda segundo os representantes, houve posterior abertura de diálogo com a então superintendente responsável, com tratativas consideradas mais produtivas. Veja vídeo:
No entanto, a antiga superintendente, que teria garantido solução para as demandas, foi exonerada. Após mudanças na gestão da SUPAC, os estudantes afirmam que os encaminhamentos acordados não tiveram continuidade formal definida, o que teria contribuído para o atual cenário de incerteza.
“Tudo que foi acordado ficou sem procedimento definido. A Universidade se desorganizou completamente nesse processo”, afirma Caian.
Hoje, segundo os alunos, a pró-reitora Nancy Rita Ferreira Vieira acumula funções e tenta reorganizar a situação: “Ela é ótima, mas pegou a galinha pulando. Parece que acumularam demandas e agora ela está com uma bomba na mão”, diz um dos representantes estudantis.
“Um desgosto”
Com prejuízos financeiros já concretos, alguns estudantes afirmam estar preparados para acionar judicialmente a universidade. Dentre os pontos, estão os gastos com a incerteza da data da colação de grau. Em especial dos formandos que possuem família fora de Salvador.
“Eu já estou com processo pronto para cobrar passagem e hospedagem de familiares.”
A possibilidade de mandado de segurança coletivo também segue no radar, já que os alunos argumentam que tiveram seus direitos violados. Diante do impasse com a instituição, Ingridy resume o sentimento coletivo:
“A gente passou por pandemia, greve, dificuldade para conseguir vaga de TCC. Lutamos para formar no tempo certo. E agora, no final, a expectativa de formar virou um desgaste emocional gigantesco.”
Ela menciona ainda que a turma seria a primeira a se formar após a posse da primeira diretora mulher da faculdade — um marco simbólico que agora perde brilho diante da crise.
“A faculdade está sendo um desgosto”, conclui.

A eleição da primeira diretora mulher, professora Mônica Aguiar, contou com diversas discussões. Uma delas foi quanto ao critério de votação , na época a Ufba se manifestou a favor do modelo utilizado.
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