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Temer, Moraes, Nilo, sigilo de fonte e áudio de zap. Parece demais; é só Brasil

A institucionalidade pregada por Michel Temer usa terno e gravata, tem mesóclise no vocabulário, e sustenta democracias. O arquivo de audição única no ZAP é apenas a malandragem de chinelos corroendo o que resta de institucionalidade

Por Pablo Reis.

Temer, Moraes, Nilo, sigilo de fonte e áudio de zap. Parece demais; é só Brasil

Algum filósofo contemporâneo que alertasse para o fato de que gravar áudios se tornou uma das coisas mais abomináveis da civilização atual, eu concordaria na mesma hora. É a cara do português João Pereira Coutinho, ou do meu sagaz professor Wilson Gomes, escrever ou discorrer, com pepitas de ironia, sobre como essa prática é uma forma de cagar para o tempo do outro, ou de valorizar o próprio. Ou de se lambuzar num orgasmo seco com a própria dicção e a própria respiração enfadonhas. Eles, Gomes e Coutinho, fariam com brilhantismo essa metáfora - ao qual me caberia somente curtir e compartilhar.

A questão é que, por mais mesquinha que seja a atitude, todo mundo que a adota tem uma razão nobre e definitiva para tal. Inclusive eu, na sexta-feira,14, às 12h11, saindo da sessão do filme 963 dias, uma avant-première na única sala IMAX de Salvador. Precisei sacar o celular ainda no corredor para gravar o áudio que também me colocaria na galeria dos praticantes desse esporte de desvalorizar o próximo, e enviar ao produtor da obra, Maurício Magalhães. Eu tinha minha razão, nobre e definitiva, como a de todos que comungam do hábito: precisava mostrar, de forma fática e enfática, que realmente tinha apreciado aquele filme (para usar uma linguagem nobre e definitiva da geração atual, como “aquela obra tinha me atravessado”).

Quando um colega jornalista me viu deixando a sala só depois dos 100 minutos, exclamou: "rapaz, o filme deve ser bom, pra você ter ficado até o final". Não que eu seja um cinéfilo exigente, do tipo que abandona a projeção ao perceber uma incongruência de roteiro, uma atuação vacilante, uma fotografia menos que brilhante. É que eu tinha avisado que só poderia ficar uns quinze minutos, antes de ir para outro compromisso. Faltei ao outro compromisso e, por aqui mesmo, peço desculpas ao pessoal. Foi por uma boa razão. Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de ver, diante dos olhos, a história recente de um país sendo passada a limpo.

 

Um homem que não tem chinelos

 

O documentário de Bruno Barreto é generoso com seu personagem, e isso não é defeito: é premissa. Reúne depoimentos de Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Tarcísio de Freitas, Rodrigo Maia, Moreira Franco, Antonio Imbassahy — o ex-prefeito de Salvador articulou boa parte das entrevistas e narra passagens que viveu como ministro — e até de antagonistas como Tabata Amaral. O PT foi convidado e recusou. Ausência que diz tanto quanto qualquer fala.

Há uma cena que resume tudo. Numa reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em 21 de novembro de 2016, Nizan Guanaes toma o microfone e diz na cara do chefe do Executivo, diante de plateia poderosa, que ele precisa aproveitar o termômetro quente da desaprovação popular para aprovar reformas e tomar medidas necessárias: "popularidade é uma jaula. O senhor tem que puxar isso para o senhor e falar à nação". 

Quanta petulância do baiano. E quanta lucidez. Meses depois, o Ipsos mediria 2% de avaliação ótima ou boa para aquele governo, em julho de 2017. Em junho de 2018, o Datafolha registraria 82% de reprovação, recorde para um presidente desde a redemocratização. 

A história decantou rápido demais. São menos de dez anos entre ele passar a faixa a Jair Bolsonaro sob gritos de "golpista", depois de 963 dias açoitado pelo mantra Fora, Temer, e o momento em que adversários de outrora — Tabata entre eles — passam a reconhecê-lo como estadista. Ou, no mínimo, como um personagem que zela pelas instituições.

Quem melhor traduz esse formalismo é a filha, Luciana Temer, também advogada, também professora de Direito Constitucional. Imagine definir o único presidente da história a incorporar mesóclises ao vocabulário — falado e escrito. "Eu nunca vi meu pai de chinelos. Aliás, acho que ele não tem chinelos." É a melhor tradução de uma escola política inteira: a que acredita que a forma é o último anteparo contra a barbárie. Que enquanto houver rito, houver terno, houver mesóclise, a República ainda está de pé.

Aos 85 anos, o homem sem chinelos está lúcido sobre as coisas do mundo e — o que é mais raro e mais precioso — lúcido sobre si mesmo. Disse que se acostumou a eventos para trinta, quarenta pessoas em São Paulo, e que se impressiona com os espaços lotados sempre que é chamado a Salvador. De fato: a sala IMAX não tinha lugar sobrando, e mais de uma dezena de pessoas assistiu de pé aos 100 minutos.

Baianos participam decisivamente da obra. Maurício Magalhães é fundamental na condição de produtor. Vale dizer que o criador do Festival de Verão gosta de elevar o sarrafo nos segmentos em que se envolve — e são vários, talvez por isso seja mais justo deixar de nomeá-lo publicitário, empresário ou comunicador, e chamá-lo de realizador em série. Foi ele quem alertou, em entrevista ao Linha de Frente, da rádio Antena 1 antes da exibição, sobre a preservação das instituições acima das pessoas. O outro baiano Imbassahy fez todo o trânsito entre o mundo político e empresarial e o universo dos artistas.

Em Salvador, o evento foi patrocinado pela Associação Comercial da Bahia, a mais antiga entidade de classe do país, atualmente comandada por Isabela Suarez, e pelo BahiaNoticias, liderado por Ricardo Luzbel. (É muito nome de Bahia envolvido, e isso não parece mera coincidência). 

Na saída da exibição, a professora, doutora em comunicação, Malu Fontes, teve um estalo, uma senha para a recepção da obra, a ser exibida comercialmente em setembro: "o distanciamento histórico sempre ajusta a leitura das manchetes de ontem". E concluiu, com elegância peculiar: "O tempo fez bem aos quase mil dias de Temer". Zuleica Andrade, diretora de jornalismo da Bandeirantes na Bahia: "é um bom trabalho jornalístico refletindo sobre o jornalismo".

Pois o jornalismo estava ardendo nas mãos do Judiciário naquela mesma semana.

Pre Estreia Filme Temer

Dois áudios e uma fonte queimada

Dias antes da sessão, nossa frágil impressão de institucionalidade levou dois cruzados - ou dois diretos, a depender do sparring.

Na quinta-feira, 13 de agosto, o desembargador Maurício Kertzman, presidente do TRE-BA, fez algo raro: leu em plenário a mensagem que recebera de um deputado federal. Áudio de audição única no WhatsApp — a tecnologia que promete evaporar como a memória de um bêbado. "Se você continuar fazendo essa sacanagem que está fazendo comigo, a serviço de Rui dos Respiradores, pode ter certeza que a Bahia toda vai ver o dossiê. Represália, viu!" O remetente: Marcelo Nilo. O motivo: Kertzman votara contra ele em ação sobre propaganda antecipada. O tribunal encaminhou o caso ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público da Bahia. A Associação dos Magistrados da Bahia soltou nota de repúdio.

Nilo nega a ameaça, alega perseguição, diz que o desembargador é "da cozinha de Wagner e da cozinha de Rui Costa" e anunciou que leria o dossiê na tribuna da Câmara nesta terça-feira, 18. Contou que recebeu o material de outros magistrados, meses atrás. E acrescentou a frase que faz este artigo existir: jamais revelará suas fontes.

Guarde essa declaração.

Dois dias antes, em 11 de agosto, um ministro do Supremo Tribunal Federal havia encontrado um caminho para fazer exatamente o contrário. Alexandre de Moraes autorizou busca e apreensão contra Raimundo Soares Cutrim, no Maranhão, apontado como a fonte do jornalista Luís Pablo — que desde novembro de 2025 publicava sobre o suposto uso irregular de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares do ministro Flávio Dino. Em março, a Polícia Federal já havia apreendido os equipamentos do repórter. O argumento: o sigilo da fonte não pode servir de "instrumento de impunidade criminal" nem acobertar assédio e perseguição.

Folha, Estadão e O Globo reagiram com editoriais ferozes no mesmo dia. A Folha falou em "afronta à liberdade de imprensa" e em colocar o "corporativismo acima da Constituição". O Estadão disse que a decisão atingiu "o próprio Estado Democrático". O Globo classificou de inconstitucional e de precedente perigoso. Abraji, Fenaj, ANJ e Abert convergiram. O Comitê para Proteção de Jornalistas e a SIP se manifestaram de fora. Todos apontando para a mesma linha: o inciso XIV do artigo 5º da Constituição que aquele ministro é remunerado para interpretar e defender.

Em sessão do STF, o próprio De Moraes fez uma diferenciação entre “jornalista investigativo e jornalista investigado”. Só não deixou claro quem é capaz de fazer essa classificação de forma imparcial. Parece que apenas ele mesmo. Pense em como essa frase/ameaça pode ecoar nos ouvidos de colegas jornalistas que ousem investigar contratos advocatícios milionários do banco Master…

E há um detalhe que a semana entregou de bandeja: esse ministro foi aluno e tutelado de Michel Temer na política, até ser indicado pelo próprio ao STF. E é um dos depoentes do filme sobre a preservação das instituições.

 

Stalker, criminoso? Há outros remédios

Seria desonesto não reconhecer que há defesa dos dois lados. Dino não reclamou de reportagem: reclamou de monitoramento — carros particulares seguidos, deslocamentos da família mapeados. Se isso ocorreu, não é jornalismo, é stalking, e nenhum salvo-conduto constitucional cobre perseguição. O ponto é que o remédio escolhido não trata a doença: para punir eventual perseguição, bastava investigar o perseguidor. Ao ir atrás de quem falou com o repórter, o Estado não desarmou um stalker — desarmou um informante. E o próximo servidor público que vir uma irregularidade num pátio de garagem oficial vai calcular, antes de ligar para um jornalista, quantos anos de vida tem para gastar num processo.

Vale também o contraponto sobre Temer. "Talvez tenhamos sido injustos" é uma frase honesta, mas perigosa se ficar sozinha. O Brasil não está reabilitando Temer por reexame de mérito. Está reabilitando por comparação — o mesmo mecanismo que transformou generais em moderados e ministros em heróis, dependendo da década. Absolvição por contraste não custa tão caro: exige apenas que apareça alguém pior. E sempre aparece. Se a régua da institucionalidade for o menos ruim disponível, ela desce um degrau a cada eleição. E tem gente que até aplaude.

O que é verificável: aquele governo aprovou a reforma trabalhista e o teto de gastos, teve duas denúncias barradas na Câmara em 2017, e o ex-presidente passou quatro dias preso em março de 2019 e outros cinco em maio, por decisões que em ambos os casos foram revertidas em instância superior. Tudo isso cabe no mesmo homem. E cabe na mesma pergunta: instituições que funcionam são as que absolvem, as que prendem, ou as que fazem as duas coisas em menos de dois meses?

 

A audição de um país

Repare no arco. Em 7 de março de 2017, na madrugada do Palácio do Jaburu, o empresário Joesley Batista gravou escondido o presidente da República, e aquele áudio, revelado em maio, quase derrubou os 963 dias. Nove anos depois, um deputado grava um áudio de audição única para ameaçar um desembargador, e um jornalista tem a fonte identificada por decisão judicial. O gravador mudou de mãos. As consequências ficaram totalmente diferentes. 

Nós saímos de um país onde o áudio derrubava governos para um país onde o áudio é enviado com autodestruição programada e o registro que sobra é o do informante. Não é que as instituições brasileiras tenham caído. É pior e mais sutil: elas aprenderam a se curvar com boa postura. Aprenderam a mesóclise. Continuam de terno, jamais de chinelos, e é justamente por isso que nem sempre percebemos quando estão fazendo o contrário do que dizem.

E não sei como ainda não ousamos aprofundar a simbologia do 9-6-3 na gramática própria da maçonaria, na qual, dizem, o ex-presidente está no mais elevado grau. Talvez porque a numerologia seja menos reveladora que a aritmética simples desta semana: Temer, Moraes, Nilo, Dino, todos no mesmo calendário, a 80 km/h, na velocidade que se grava e manda um áudio de zap.

Um deputado deve subir à tribuna da Câmara para ler um dossiê que diz ter recebido de magistrados, protegido pela imunidade parlamentar, jurando que jamais revelará suas fontes. Uma semana antes, a fonte de um jornalista já tinha sido identificada e teve a casa revistada por ordem do Supremo.

Algo me diz que a República está de sandálias.

 

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